American Horror Story: Cult e o futuro que mais tememos

American Horror Story é uma série de terror norte-americana, criada por Ryan Murphy (também criador de Glee), que a cada temporada exibe universos diferentes com os mesmos atores.

Ela está na oitava temporada, mas esse post será dedicado inteiramente a sétima temporada, American Horror Story: Cult.  (p.s. o post contém alguns spoilers, mas nada que afete a trama principal)

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Cartaz da sétima temporada.

A narrativa dessa temporada começa literalmente um dia após Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ganhar as eleições de 2016. Antes que pense que é baseado em fatos reais, não é, mas poderia ser e esse foi o motivo de eu fazer essa análise.

Nós seguimos a história de um casal lésbico, Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson) e Ivy Mayfair-Richards (Alison Pill), após a ascensão de Trump e o declínio mental de todos os personagens em volta das duas.

Assim que o candidato, que odeia a comunidade LGBTQ, ganha, a vida de Ally e Ivy muda pra pior. Além de o casal não poder mais mostrar afeto na rua, pois são ameaçadas por homofóbicos, a saúde mental de Ally piora devido ao medo de ser quem é e, assim, todas as fobias que ela já teve na vida voltam a atormentá-la.

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Ally em choque quando Trump ganha as eleições.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos o casal, vemos a trajetória de Kai Anderson (Evan Peters), um jovem eleitor de Trump, que se sente humilhado, pois ninguém dá atenção para as coisas que ele diz, o que o motiva a se candidatar a vereador de sua cidade.

Para Kai, é necessário que os políticos assustem as pessoas da violência da cidade e, assim, darem ao estado o direito de fazer o que for necessário para proteger os moradores de lá.

Visto que Kai mal recebe apoio dos cidadãos, ele decide agir com as próprias mãos e começa a recrutar seguidores para concretizar seu plano de salvar a nação do mal.

E como ele faz isso?

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Kai Anderson (Evan Peters)

Kai vai atrás de pessoas que estão passando por alguma crise, seja financeira ou existencial, pessoas que se sentem abandonadas pela sociedade e usa a insegurança dessas pessoas a seu favor. Mas, como?

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O casal Harrison e Meadow Wilton

Um dos primeiros a serem recrutados por Kai é o casal Harrison (Billy Eichner) e Meadow Wilton (Leslie Grossman). Harrison e Meadow são amigos há anos e tinham um pacto: caso nenhum dos dois se casasse até os 35 anos, eles iriam se casar.

No entanto, Harrison é gay e não consegue ter relação com Meadow. Já ela, é apaixonada pelo amigo e mesmo sabendo da sexualidade dele, topou se casar. Ainda, os dois enfrentam uma difícil crise financeira, em que a única saída é hipotecar a casa e pagar suas dívidas.

Eis que chega o salvador! Kai Anderson investiga a vida de Harrison e se aproxima dele, dizendo que tem a solução dos seus problemas e que ele só tem que acreditar em Kai.

Kai consegue um novo apartamento para o casal e em troca eles o obedecem sem questionar qualquer ato de Kai.

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Beverly Hope (Adina Porter)

A próxima a ser recrutada é Beverly Hope, uma repórter negra, que trabalha duro para conseguir destaque, mas perde todas as oportunidades para uma repórter branca e mais nova, que está se relacionando com o patrão.

Para convencê-la a se juntar ao grupo, Kai mata a outra repórter e diz que a partir de agora Beverly tem que confiar nele, pois ele quer o melhor para ela.

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A outra repórter (Emma Roberts) sendo assassinada.

A partir do início desse culto, Kai se aproveita do medo de seus seguidores e os manipula a enfrentar todo o mal que os cerca.

E o que é esse mal?

Esse mal é toda e qualquer pessoa que pensa diferente dele. Até mesmos seus fiéis discípulos, quando ousam questionar alguma de suas ideias, sofrem com a repressão.

Agora eu te pergunto: por que os roteiristas da série fizeram uma história assim justamente após a eleição de Donald Trump?

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“Nós vamos construir uma grande muralha!”

Donald Trump conquistou seus fiéis instigando o medo e o ódio. Ou seja, grande parte de sua campanha foi baseada em acusações aos mexicanos, gays, negros e mulheres de serem o problema da sociedade americana e que se ele fosse eleito, iria corrigir tudo isso.

Sem adentrar muito na política, o que a ficção de American Horror Story tem de semelhante com a vida real?

Quando as pessoas estão perdidas e desacreditadas do futuro, é fácil para um salvador chegar e dizer que vai solucionar tudo rapidamente. Isso é exatamente o que todos queremos ouvir! Quem me dera alguém resolvendo todos os meus problemas num piscar de olhos e foi exatamente isso que aconteceu nos EUA e está acontecendo com a sociedade brasileira atual.

O Brasil está economicamente mal e todos estão sofrendo com isso, logo, quando chega um candidato como o Jair Bolsonaro dizendo que vai resolver todos os problemas, é fácil acreditar porque é isso o que queremos, uma solução rápida.

No entanto, o que a série mostra, é que soluções rápidas trazem perdas irreversíveis. O personagem Kai queria tanto salvar a população do mal, que se propôs a matar e assustar pessoas, culpando mexicanos, por exemplo, para dizer que era só acabar com os mexicanos que os americanos estariam salvos da violência.

E a verdade é: Kai era o problema. Ele queria tanto ser adorado e amado por todos, que topou fazer de tudo, inclusive matar, para conquistar a confiança de seus seguidores e mostrar uma falsa civilização em que nada de ruim aconteceria.

Problemas vão acontecer sempre, quer a gente queira ou não, porém, não dá pra aceitar soluções fáceis caso essas soluções prejudiquem outras pessoas porque isso é o início de uma guerra.

Acabar com uma minoria pode até aliviar pro lado de alguns, mas com o passar do tempo, essa minoria vai ter seu medo e ódio instigado e provavelmente vai querer vingança também. É justamente isso que a série alerta!

Sem querer dá um spoiler do final, mas a ideia é que todos os humilhados caso não tenham chances na sociedade atual, um dia vão buscar suas oportunidades com as próprias mãos, assim como o Kai fez e ninguém vai ganhar com isso.

A série mostra que é fácil “lavar as mãos” e deixar um salvador tomar as decisões por todos, mesmo que essa decisão afete a vida de milhões, e caso algo dê muito errado, todos apontam o “salvador” como o culpado e acreditam que não tem culpa de nada, quando na verdade ao dar voz a ele, todos se tornaram cúmplices e culpados também.

Assim, minha dica é: assista a série e reflita sobre nossa sociedade atual e veja o quão próximo dessa realidade estaremos caso a gente não faça nada para evitar isso.

É claro que a ficção leva tudo ao extremo, ainda mais porque a série é de terror, mas traga a ficção para a realidade – a morte de Marielle Franco, a morte de Mestre Moa, a morte de pessoas da comunidade LGBTQ – e tire suas próprias conclusões. Você prefere se omitir e lavar as mãos ou prefere evitar um futuro trágico como esse?

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“Ally: Eu não sou a inimiga!”

BIBLIOGRAFIA:

G1.”O que se sabe sobre as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes”. 2018. Disponível em:<http://gshow.globo.com/tv/noticia/amor-sexo-fala-sobre-feminismo-em-programa-de-estreia-confira.ghtml&gt;. Acesso em: 21 de out. 2018.

G1. “Investigação policial conclui que morte de Moa do Katendê foi motivada por briga política; inquérito foi enviado ao MP”2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/10/17/investigacao-policial-conclui-que-morte-de-moa-do-katende-foi-motivada-por-briga-politica-inquerito-foi-enviado-ao-mp.ghtml>. Acesso em: 21 de out. 2018.

WIKIPEDIA. “American Horror Story: Cult“. 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/American_Horror_Story:_Cult&gt;.Acesso em: 21 de out. 2018.

 

 

Women’s March: a marcha das mulheres e o que está por trás do evento.

O dia 16 de janeiro de 2017 foi considerado o dia mais triste do ano, chamado de “Blue Monday”, segundo o estudo de Cliff Arnall, psicólogo da Universidade de Cardiff, no País de Gales. No entanto, ao meu ver, o dia mais triste do ano é hoje.

Hoje, infelizmente, nós perdemos e muito. No dia 20 de janeiro de 2017, Donal Trump assume a presidência dos Estados Unidos e é doído escrever sobre isso. Hoje, nos despedimos da maravilhosa família Obama e entramos numa era assustadora, com Trump, Temer, Brexit*, tristeza e tristeza.

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“A Esperança é necessária.” Já estamos com saudades, Michelle!

Como não sou jornalista e não entendo tanto de política, eu vou mudar o foco do texto e falar sobre a luta feminista e, mais especificamente, o Women’s March (Marcha das Mulheres), que irá ocorrer amanhã, dia 21 de janeiro de 2017.

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“Marcha das Mulheres em Washington, 21 de janeiro de 2017, às 10hrs”

No dia após a posse do novo presidente, mulheres irão marchar, para que suas vozes não mais sejam silenciadas. A ideia surgiu depois que os resultados das eleições presidenciais saíram, nos EUA, tendo como ponto de partida, a cidade de Washington e, agora, são mais de 600 cidades. No site do womensmarch, é possível ler sobre a missão e visão do projeto:

“Estamos juntos em solidariedade com nossos parceiros e crianças para a proteção de nossos direitos, nossa segurança, nossa saúde e nossas famílias – reconhecendo que nossas comunidades vibrantes e diversas são a força do nosso país.”(Tradução livre)

E por quê essa caminhada é tão importante para a sociedade?

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“Quando os poderosos usam sua posição para praticar bullying nos outros, todos nós perdemos.”

Aproveitando a fala da querida Meryl Streep, no Globo de Ouro 2017, vale a reflexão de que está mais do que na hora de discutirmos o quão assustador e retrógrado será, para todos nós, um homem como o Trump assumir a presidência de uma das maiores potências econômicas atuais, destilando ódio e preconceito em todas as suas falas.

Eu não vou fazer esse texto criticando ele, porque senão eu escreveria um livro de 500 páginas só pro primeiro capítulo, mas, sim, usarei as palavras das líderes da Marcha, para mostrar o quão importante esse evento será.

“A Marcha das Mulheres em Washington enviará uma mensagem ousada ao nosso novo governo em seu primeiro dia no comando e para o mundo, de que os direitos das mulheres são direitos humanos. Estamos juntos, reconhecendo que defender os mais marginalizados entre nós é defender a todos nós.”(Tradução Livre)

Como o grupo deixa bem claro no site, essa luta não é só contra o machismo e misoginia, é contra todo e qualquer tipo de preconceito. É a favor de todas as minorias, que, por sinal, são os grupos de maior ataque do atual presidente.

Segue o link da página do Facebook, Women’s March on Washington, com um vídeo (em inglês) explicando sobre o evento.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fwomensmarchonwash%2Fvideos%2F1401849963161612%2F&show_text=1&width=560

Como a Paula Cosme Pinto diz muito bem, no texto A Marcha das Mulheres também é sobre os homens” no site Expresso: Se a forma misógina, desrespeitosa e totalmente discriminatória como se refere ao sexo feminino (mais de metade da população mundial) não era suficiente para irmos todos para a rua, então que pensemos também nos comentários racistas, xenófobos, homofóbicos e totalmente desproporcionados no que toca a diabolizar minorias ou populações mais excluídas. Na forma como constantemente desrespeitou e pôs em causa as regras mais básicas do direitos civis e humanos, no seu país e nos demais.”

Também no site Nexo, podemos ler que: “Em entrevista ao jornal “The New York Times”, Breanne Butler, uma das organizadoras da marcha, disse que a manifestação é uma afirmação política, uma demonstração de “boas vindas” por parte de grupos marginalizados e atacados por Trump durante a campanha presidencial, que agora tentam mostrar estar atentos a suas ações. Por isso, direitos de imigrantes e de minorias em geral também estão em pauta, além das questões de gênero.”

Ou seja, essa marcha põe em pauta todas as questões que homens brancos, como Donald Trump, insistem em pisotear e debochar, cegos com todo o seu privilégio.

Os 5 princípios do Women’s March, retirado do site original, com tradução livre, são:

  1. A não-violência é um modo de vida para pessoas corajosas.
  2. A amada Comunidade é o quadro para o futuro.
  3. Ataque as forças do mal, não as pessoas que fazem o mal.
  4. Aceitar o sofrimento, sem retaliação, pelo bem da causa, para alcançarmos nosso objetivo.
  5. Evitar a violência interna do espírito, assim como a violência física externa.

Ainda de acordo com o site, para as brasileiras e brasileiros interessados na causa, haverá uma marcha na cidade do Rio de Janeiro, em Ipanema – Praça Nossa Senhora da Paz, dia 21 de janeiro às 13hr. Segue o evento no facebook. Para os que não poderão ir, espalhe a notícia ou use a hashtag #WhyIMarch e mostre sua força e resistência, mesmo que através da internet. Estamos juntos nessa!

Sendo assim, em tempos em que levamos golpes cruéis, como no Brasil ou pela ascensão dos republicanos no EUA, não por Trump ser o mais votado, visto que Hillary Clinton teve 2,9 milhões de votos à mais, mas pelo sistema antiquado que silencia a democracia, devemos mais do que nunca, nos juntar nessa causa e usarmos nossa força maior: a fala.

Não ao ódio, ao preconceito, ao racismo. Chega de homofobia, machismo e xenofobia. Chega, Chega, CHEGA!

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“Mulheres do mundo unidas.”

BÔNUS DO DIA

Para quem tem interesse em ler e entender um pouco mais sobre a luta feminista, segue o link do texto em que falo sobre o documentário “She is Beautiful When She is Angry”.

*Brexit: é a abreviação das palavras em inglês Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). Designa a saída do Reino Unido da União Europeia.

BIBLIOGRAFIA:

DN.Resultado final: Hillary teve mais quase 2,9 milhões de votos que Trump. 2016. Disponível em: <http://www.dn.pt/mundo/interior/resultado-final-hillary-teve-mais-quase-29-milhoes-de-votos-que-trump-5567750.html&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

DE LIMA, Juliana Domingues. As mulheres que marcharam em Washington em 1913. E as que prometem marchar em 2017. 2017. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/01/17/As-mulheres-que-marcharam-em-Washington-em-1913.-E-as-que-prometem-marchar-em-2017?utm_campaign=a_nexo_2017117_-_duplicado&utm_medium=email&utm_source=RD+Station&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

PINTO, Cosme Paula. A Marcha das Mulheres também é sobre os homens. 2017. Disponível em: <http://expresso.sapo.pt/blogues/bloguet_lifestyle/Avidadesaltosaltos/2017-01-20-A-Marcha-das-Mulheres-tambem-e-sobre-os-homens&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

UOL NOTÍCIAS. Hoje é ‘Blue Monday’,o dia mais triste do ano, mostra estudo. 2017. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2017/01/16/hoje-e-blue-mondayo-dia-mais-triste-do-ano-mostra-estudo.htm&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

WOMEN’S MARCH. 2017. Disponível em: <https://www.womensmarch.com/mission/&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.