Jane, A Virgem: o dramalhão mais divertido da atualidade

Sabe aquela série que você assiste o primeiro episódio e acha meio “bleh”? Então, eu assisti  Jane, The Virgin e não me apaixonei, no entanto, por uma sorte muito grande, recentemente eu insisti nessa série e finalmente DEU MATCH!

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Cartaz da série.

SINOPSE: Jane é uma jovem religiosa que trabalha como garçonete em um hotel em Miami e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando sua médica acidentalmente faz uma inseminação artificial nela. Agora, Jane precisa tomar a maior decisão de sua vida.

O piloto da série não me convence tanto porque fazer inseminação artificial na paciente errada é um erro médico gravíssimo e uma clínica série nunca faria isso. Porém, depois de conhecer melhor a médica que comete o erro e entender que esse acidente foi só o impulso da série, eu ignorei esse detalhe e fui me encantar com tamanha criatividade e diversidade numa série americana.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que essa série é uma adaptação da telenovela venezuelana Juana, la virgen (2002). Eu não acompanhei a novela, mas a série é bastante fiel aos clichês de novelas, o que dá um charme ao programa.

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“Mas eu nunca fiz sexo!”

1) Representatividade Latina

Pra quem está acompanhando o que tem acontecido em Hollywood sabe que muitas celebridades estão falando abertamente sobre os abusos, machismo e a falta de punição aos opressores. Além disso, existem outras reivindicações, como uma maior diversidade na frente e por trás das câmeras.

Ou seja, ninguém aguenta mais ver macho hetero branco sendo protagonista porque o mundo vai além de macho branco. Sendo assim, uma maior diversidade seria dar protagonismo as mulheres, aos negros, personagens LGBTQ e de outras nacionalidades, por exemplo.

Com isso, acredito que a série Jane, A Virgem teve êxito nesse quesito, pois a protagonista é uma jovem mulher, interpretada pela atriz Gina Rodriguez, que vive com sua mãe e sua avó, é descendente de venezuelanos e todas falam espanhol. Aliás, a avó só fala a língua espanhola e nada de inglês.

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Aleluia mesmo!

2) Além dos esteriótipos

Para quem está acostumado com novelas sabe que esse tipo de narrativa usa e abusa de esteriótipos e isso é cansativo. Apesar de Jane, The Virgin ser carregado de esteriótipos, a trama usa isso como artifício de humor e, em alguns casos, para nos fazer refletir.

Por exemplo, a Alba (Ivonne Coll), avó de Jane, entrou ilegalmente nos EUA e ela teme que o governo descubra e a deporte. No entanto, o público se encanta com a “abuela” e a gente começa a entender o lado humano e toda vez que ela corre o risco de ser deportada, a gente sofre junto com ela e torce para que isso não aconteça.

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Sim, sim, é amor por você Alba.

Além disso, Alba é uma mulher absurdamente religiosa e foi justamente ela quem convenceu Jane a se casar virgem. Porém, ao mesmo tempo em que é bastante conservadora, ela quebra tabus quando se trata de amor e família, pois sua filha e mãe de Jane, Xiomara (Andrea Navedo), engravidou aos dezesseis anos de idade e criou a filha sozinha com a ajuda da mãe.  Eu não resisto quando tem um núcleo de família em que mãe, filha e neta são super próximas e o porto seguro uma da outra.

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Suas lindas!

3) Mulheres independentes

Falando na Xiomara, a história dela é muito interessante também. Ela engravidou muito nova, contou ao rapaz e ele pediu que ela fizesse um aborto, só que ela seguiu o caminho oposto e criou sua filha sem ajuda nenhuma do pai.

Ademais, ela é aquele mulherão que conquista os homens e ela aproveita isso bastante. Ao longo dos anos, Xiomara se relacionou com vários homens e teve poucos relacionamentos sérios, por escolha própria. Numa sociedade tão conservadora quanto a nossa, essa personagem seria bem crucificada, mas o que a gente vê é uma mãe religiosa que apesar de criticar a filha, nunca a abandonou.

E claro, não posso me esquecer que o sonho de Xiomara é ser uma cantora famosa, mas como ela teve filha muito cedo acabou deixando este sonho de lado. No entanto, agora que sua filha já está crescida, ela continua atrás do seu sonho e a gente sofre com as rejeições que ela tem por ser uma mulher mais velha e torce para que ela tenha seu momento de brilhar.

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Você mesma, Xiomara!

Continuando a listinha, a própria protagonista é um ótimo exemplo de mulher independente. Ela acabou de se formar, não aceita os vacilos dos homens ao seu redor, mesmo quando está mega apaixonada, investe no seu sonho de ser escritora, optou por continuar virgem até o casamento – eu acho isso ótimo porque assim como a mulher tem o direito de transar quando achar que deva, ela também pode fazer essa escolha de se resguardar, cabe a cada mulher (homem também) decidir a hora certa de perder a virgindade – e segue adiante enfrentando tudo o que vem pela frente.

Ainda, aproveito para fazer propaganda da atriz que interpreta Jane, a Gina Rodriguez. Ela luta bastante pela boa representatividade da cultura latina no audiovisual norte-americano, que insistiu por anos em usar esteriótipos ofensivos e repetitivos e agora está dando voz a várias culturas que merecem esse espaço.

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“Esse prêmio vai além de mim. Ele representa uma cultura que quer se ver como heróis.”

Para não falar de todas as personagens mulheres que existem na série, vou terminar a listinha com a Petra Solano (Yael Grobglas).

A Petra é a vilã e rival de Jane, sim ela é um estereótipo que eu particularmente detesto, pois faz de tudo para manter seu homem e ter dinheiro. Entretanto, há algo que eu gosto bastante nessa personagem que é o passado dela e os relacionamentos abusivos que ela vive e como é IMPORTANTE debater isso.

Não irei adentrar na história dela porque seria um baita spoiler, mas direi o seguinte: ela se envolve com homens muito agressivos e vive relacionamentos absurdamente abusivos e, mesmo sendo a vilã da história, a gente sente a dor dela na pele quando ela passa por algum tipo de agressão física ou verbal. A verdade é que homem NENHUM tem o direito de encostar o dedo em alguma mulher de forma violenta ou sem a autorização dela e, independente de ser amiga ou não da mulher em questão, sempre a defenderei de homens machistas que merecem estar na cadeia.

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Feminismo sempre!

4) Representatividade LGBTQ

Apesar de não ter muitos personagens LGBTQ, ao menos não na primeira temporada, o casal Rose (Bridget Regan) e Luisa (Yara Martinez) foge de muitos esteriótipos que estamos acostumados a ver sobre lésbicas.

A história delas é tão louca quanto a do casal protagonista, mas não existe homofobia ou queerbaiting*. Rose é casado com o pai de Luisa, porém elas se envolveram antes de saber desse detalhe e acabaram se apaixonando de verdade.

É difícil falar desse casal sem dar spoiler, no entanto, o que eu acho legal é ver duas mulheres lindas que realmente se apaixonaram uma pela outra e tentam viver essa paixão de alguma forma. Como nenhum casal é normal nessa série, acho mega válida a história delas e AMO todas as cenas em que elas aparecem juntas!

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Rose e Luisa.

5) Os homens da série

É complicado falar de macho sem se decepcionar, ainda mais com tudo o que tem acontecido em Hollywood, todavia, eu gostaria de dar destaque a alguns personagens masculinos.

Vamos começar pelo Michael Cordero Jr. (Brett Dier).

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Michael e Jane.

Ele é um policial, todo certinho, completamente apaixonado pela namorada, que é a Jane e, o que eu acho mais incrível, é que eventualmente ele aceita o fato de que Jane decidi continuar com a gravidez – mesmo tendo sido um erro médico e não sendo filho dele – e ele não age de forma agressiva com ela, como muitos homens agiriam no lugar dele.

Sim, esse personagem comete erros e faz umas machices que cansam, mas ele nunca usa a força física para se impor ou tentar diminuir Jane ou as mulheres a sua volta e, por isso, eu tenho que parabenizá-lo. No mundo em que vivemos, o que eu mais vejo são personagens masculinos, policiais ou não, absurdamente agressivos e grosseiros e ver um que foge desse padrão me deixa contente.

Como ainda estou na primeira temporada, não sei se há alguma mudança brusca no comportamento dele, mas até agora eu gosto bastante da forma como ele age e acho fofo o quanto ele é apaixonado pela Jane.

Agora, vamos ao Rafael Solano.

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Rafael Solano

O maior playboy, filhinho de papai, mas que durante sua jornada na trama tem uma evolução de caráter muito grande. Digamos que ele era o típico Joey e Barney (só que bonito) e isso desanima bastante, porém ele tem câncer e descobre que somente poderá ter filhos com a amostra de esperma que foi acidentalmente inseminado na Jane, ao invés de sua namorada.

A temporada vai seguindo e ele passa a enxergar Jane de um jeito diferente, se apaixonando e se transformando num cara determinado a esperar pelo casamento para finalmente transar com ela, ser pai e constituir uma família.

Acontece muita coisa doida na vida dele, então é possível entender alguns surtos que ele tem, mas eu gosto do jeito que ele vai amadurecendo e melhorando na narrativa.

Por último, o personagem masculino que mais me diverte, Rogelio de La Vega (Jaime Camil).

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Sou eu mesmo.

Rogelio é um ator famoso de telenovelas que só fez sucesso depois dos trinta e nove anos, absurdamente dramático e pai biológico de Jane. Na época, ele não ficou sabendo que Xiomara continuou com a gravidez e só soube da existência de sua filha quando ela já tinha vinte e três anos de idade. Assim, ele decide recuperar o tempo perdido e dá uma de “paizão”.

Apesar do desastre que ele é, fazendo tudo de uma forma épica e exagerada, eu acho muito fofo o jeito que ele se encanta pela filha e como se esforça pra recuperar o tempo perdido. Além disso, ele acaba se apaixonando de novo pela Xiomara e eu AMO o casal Xiomara e Rogelio. É o núcleo mais divertido da série e pra quem gosta de “draminha”, vulgo mimimi, vai se divertir horrores com eles dois.

E claro, por fim, quem interpreta a mãe do Rogelio é a atriz Rita Moreno, a “abuela” de One Day at a Time, deusa, maravilhosa, mais amada do Netflix, que eu falo no meu post anterior.

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Rogelio e Xiomara.

Sendo assim, assistam a série e não julguem sem pelo menos assistir a primeira temporada, pois Jane, The Virgin é uma série de comédia incrível!

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Elenco principal da série.

*queerbaiting – uma estratégia midiática utilizada na indústria do entretenimento para atrair o público que foge do padrão da cis-heteronormatividade. Ele se concretiza quando há alguma espécie de tensão sexual ou romântica entre personagens do mesmo gênero, tendo o intuito de tornar a produção representativa, mas sem desagradar a parcela conservadora da audiência.

One Day At A Time: a sitcom mais incrível da atualidade

Preciso compartilhar com o mundo minha mais recente descoberta na Netflix, a sitcomOne day at a Time.

Música tema e abertura da série, cantada pela Gloria Estefan.  É uma das poucas séries que eu faço questão de assistir a abertura de todos os episódios porque eu fico dançando também.

A série conta a história de uma família de cubanos que mora nos EUA. A “abuelita”/Lydia, interpretada pela rainha Rita Moreno, foi embora de Cuba muito cedo, devido aos problemas políticos, deixando parte de sua família para trás e começando uma nova nos Estados Unidos.

Apesar da perda, a narrativa nos leva para uma nostalgia muito grande por parte da avó, onde aprendemos e sentimos de perto sua dor, além de nos trazer problemas bastante atuais com a história dos netos e da filha.

One day at a time é um remake* de uma sitcom com o mesmo nome. A série foi exibida entre os anos de 1975 – 1984 no canal CBS no EUA, tendo um total de nove temporadas.

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Cartaz da série original.

A série original contava a história de Ann Romano (Bonnie Franklin), uma mulher recém divorciada que se muda para a cidade de Indianapolis com suas duas filhas.

Apesar de ser uma série antiga, ela também abordava assuntos bastante delicados pra época, como uma mulher divorciada que, ao mesmo tempo em que quer educar as filhas, quer dar a liberdade que ela nunca teve quando mais nova.

O remake da Netflix segue o mesmo caminho, atualizando os papeis dentro da família e alguns temas abordados.

1) Lydia ou “Abuelita” (Rita Moreno)

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Rita Moreno como Lydia.

Quem é a melhor personagem e porque é a “abuelita”?

Sinceramente, nem sei como começar a falar dessa personagem. Eu amo a Lydia de todas as formas! Ela é absurdamente engraçada, mas também nos faz chorar toda vez que ela relembra seu passado, é conservadora, mas aceita toda a diversidade que está presente em sua casa, ela faz drama, drama, drama, ou seja, ela é simplesmente incrível.

Eu tenho esse carinho especial pela “abuelita”, pois a associo com pessoas da minha vida, como minhas tias por parte de pai. Assim como Lydia, minhas tias eram musas inspiradoras quando jovem, os homens babavam por elas – e babam até hoje – e foram mulheres absurdamente corajosas e guerreiras, então não tem como eu não me apaixonar por essa personagem. Tudo nela é encantador e é só ela abrir a boca que eu já estou rindo com suas maluquices.

Para não ficar uma hora falando desse amorzinho de pessoa, vou fechar com uma notícia que enche meu coração de alegria. A atriz que interpreta a Lydia é ninguém mais, ninguém menos, que Rita Moreno. Moreno é uma atriz, cantora e dançarina porto-riquenha, ganhadora do Oscar, Emmy, Grammy e Tony, que tem 86 anos de idade e esbanja juventude, talento e carisma. Quer mais o quê?

Vídeo feito pela Netflix em homenagem a carreira de Rita Moreno.

2) Penelope (Justina Machado)

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Justina Machado como Penelope.

Penelope é filha de Lydia, nascida nos Estados Unidos e ex-veterana de guerra. Quando sua filha mais velha, Lena, nasceu, ela e seu ex-marido decidiram se realistar no exército devido ao ataque terrorista de 11 de setembro em Nova Iorque. Anos depois, ela voltou para o EUA e, atualmente, mora com os filhos e a mãe em Los Angeles, onde trabalha como enfermeira.

Essa personagem tem uma trajetória muito interessante e quanto mais a gente conhece a história dela, mais nos apaixonamos por ela. Penelope está em processo de separação do marido por vários motivos pesados e agora cuida dos filhos com a ajuda da mãe, mas é ela quem banca os custos da casa.

Ou seja, além de ser mãe solteira e ter que lidar com todas as dificuldades que vem com esse papel, Penelope também lida com sua depressão pós-guerra. Ela toma anti-depressivos e faz terapia, mas a gente vê de perto a dificuldade que é enfrentar tudo isso e manter um sorriso estampado no rosto. Eu simplesmente adoro a veracidade dessa personagem e a força dela como mulher independente num mundo tão machista quanto o nosso.

3) Elena (Isabella Gomez)

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Isabella Gomez como Lena.

Porque ela é a segunda melhor personagem e eu a AMO tanto? Talvez seja porque Lena é FEMINISTA, MARAVILHOSA, luta pela diversidade e é contra o privilégio dos homens brancos heteros. Ela é o pacote completo da perfeição e só não é a minha favorita porque a “abuelita” me ganha toda vez que acorda dançando.

A primeira temporada mostra a descoberta da sexualidade de Lena de uma forma extraordinária. A personagem começa a questionar se ela gosta de meninas ou meninos e vai descobrindo aos poucos, de uma forma muito bastante sincera. Eu sou completamente apaixonada por essa personagem e pela narrativa abordar a homossexualidade de uma forma natural e acolhedora. Para mim, a série vale só pela jornada da Lena.

Além disso, Elena é uma personagem muito fiel as meninas e mulheres que estão cansadas de serem diminuídas por causa do seu gênero e por isso abraçam o feminismo. Eu AMO essa personagem e a riqueza que vem junto com ela. Por favor, que venham mais Lenas na televisão, no cinema, na música, no MUNDO.

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“Ei ,mãe, eu acho que gosto de garotas.”

4) Alex ou “Papito” (Marcel Ruiz)

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Marcel Ruiz como Alex ou “Papito”.

Pra quem tem um irmão, seja mais novo ou mais velho, sabe o que é ter um “Papito” na sua vida. Que menino mimado, senhor! A avó não cansa de elogiar o Alex e dizer o quão especial ele é e deixa a Lena de lado. Apesar de ser engraçado, eu vejo muito isso ao meu redor, onde só por você nascer homem, sua família automaticamente te enxerga como alguém especial.

Felizmente, isso tem mudado bastante. Com Lenas vindo por aí, dou alguns anos para os paparicos virem tanto para meninas quanto meninos, cis ou trans, heteros ou gays, não importa. Todo mundo tem um quê de especial e os privilégios vão acabar, eu tenho certeza disso.

No entanto, eu admito que na segunda temporada o Alex tem um salto gigante na narrativa e ele começa a enfrentar a xenofobia* na escola, ou seja, por ele ser descendente de cubanos, ele é ofendido o tempo todo. É muito incrível a forma como a série aborda esse assunto e, pela idade dele, eu fico boba quando ele dá uma banho de ensinamento na mãe e na avó ao aceitar super bem o fato da Lena talvez gostar de meninas assim como ele.

Tomara que os meninos que estão vindo por aí aprendam com esse personagem e deixem de lado essa mania de querer socar tudo e achar que pra ser homem é preciso esconder sua dor. Homens, por favor, se libertem do machismo assim como o “Papito”, ser homem não te impede de chorar, nem de ser sensível e nem de aceitar as diferenças dos outros, pelo contrário, está mais do que na hora dos homens entrarem na luta e acabar de ver com o machismo da sociedade. Juntos somos mais!

5) Schneider e Dr. Berkowitz

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À esquerda, Todd Grinnell (Schneider), e a direita Stephen Tobolowsky (Dr. Berkowitz).

Eu queria dedicar uma seção para cada um desses personagens, mas devido a todas as acusações em Hollywood, temo estar dando espaço para quem não merece. No entanto, como esses dois personagens são muito especiais, não vou deixar de falar deles.

O Schneider é um canadense que mora nos EUA há anos e é dono do prédio em que a família da Penelope mora. Ele é um homem branco hetero mega privilegiado, mas que aos poucos vai entendendo, mesmo que MUITO DEVAGAR, o quão privilegiado ele é e vai mudando a partir do momento em que entende as vantagens que ele tem sobre os outros.

Ele tem um passado com drogas e álcool que a série ainda não abordou muito a fundo, mas que a gente começa a entender sua trajetória quando ele fala da sua família, que não parece ser tão conectada quanto a família dos seus vizinhos cubanos. No entanto, ele tem um jeito muito sensível e acaba conquistando seu lugar na família cubana que ele tanto perturba.

Já o Dr. Berjowitz é uma figura! Sério, que personagem divertido. Ele é apaixonado pela Lydia, mas ela diz que pertence ao Berto, seu falecido marido, e deixa o médico na zona de amigo e ele leva de boa. Às vezes, eu torço por esse casal, mas ao mesmo tempo eu entendo que a “abuelita” não quer e fico feliz pela série abordar essa amizade inusitada e extremamente engraçada.

No geral, gosto muito desses dois personagens, pois são homens heteros fora da caixinha, visto que eles abraçam a diversidade, choram, são amigos e sensíveis, ou seja, o tipo de homem que a gente torce pra ver na vida real. Tomara que seja o começo de personagens masculinos assim na ficção e que a era do “macho fazendo machice” acabe de vez.

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Está esperando o que para começar a maratona?

*sitcom: comédia de situação, onde existem uma ou mais histórias de humor encenadas em ambientes comuns, como família, grupo de amigos ou local de trabalho.

*remake: refilmagem de algum filme ou série antiga.

 

 

Conspiração e Poder | Um filme sobre jornalismo e a busca pela verdade

Procurei o que assistir na Netflix na noite desta terça-feira sem muita convicção de que algo iria despertar minha atenção. Mas quando vi “Conspiração e Poder” na lista dos adicionados recentemente, me senti atraída para clicar e saber mais. E o que me fez assistir não foi a capa, o título, ou a presença da Cate Blanchett no elenco, tampouco o fato de ser um filme baseado em fatos reais. Eu decidi assistir por ser um filme sobre jornalistas que cometeram um erro que lhes custou o emprego e a reputação, contado sob o ponto de vista da produtora do extinto programa jornalístico. Até hoje, ela defende a veracidade da matéria.

Em setembro de 2004, o programa 60 Minutes 2, da CBS, veiculou uma reportagem que apontava privilégios que George W. Bush teria tido durante seu serviço militar na Guarda Nacional do Texas em 1973. No entanto, pouco tempo depois da divulgação, diversas críticas à matéria apareceram e rapidamente se espalharam pela internet. Blogs conservadores apontavam de que forma os documentos mostrados pelo 60 Minutes 2 poderiam ser facilmente forjados no Microsoft Word.

Como a equipe de jornalistas envolvidos na apuração detinha apenas cópias dos documentos que provariam os supostos privilégios de Bush, eles não puderam comprovar a veracidade dos papéis. Para preservar a imagem da empresa, o respeitado âncora, Dan Rather (Robert Redford), precisou pedir desculpas pelo erro enquanto apresentava o programa. (Ainda que a equipe tenha insistido na história relatada após as primeiras críticas).

Por fim, ocorreu uma investigação interna pela emissora, e a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) foi demitida, assim como os demais integrantes, com excessão de Dan Rather que, pouco depois, contudo, pediu demissão.

É evidente perceber a semelhança entre essa história e a segunda temporada da série The Newsroom, produzida pela HBO.

Assim como MacKenzie, a produtora da ficção, Mapes tem o compromisso com a verdade correndo em suas veias. No entanto, a sede por reportar o que a população precisa saber (e isso vale para ambas) atropelou a apuração e a posterior checagem dos fatos apurados.

A questão que deteriorou a reportagem foi a falta de provas. Por mais que todas as peças se encaixassem, por mais que faça sentido Bush ter recebido tratamento diferenciado enquanto servia ao exército porque vinha de uma família abastada e importante no Texas, os jornalistas precisavam da certeza, em 100%.

A pressa contribuiu para essa falha. Não havia muitas datas disponíveis para exibir a reportagem e a escolhida deixou a equipe com apenas uma semana para concluir toda a investigação.

Eles estavam tão envolvidos na apuração que enxergaram apenas o que era o bastante para veicular as informações. No entanto, deixaram os riscos debaixo do tapete.

Um jornalista deve duvidar sempre, inclusive de si próprio. Seja nessa história real, quanto em The Newsroom, os jornalistas confiaram na história e fecharam os olhos para a possibilidade de estarem errados.

Os jornalistas, na série, têm a “missão de civilizar”, por meio do telejornal. Diferentemente da concorrência, eles querem resgatar o que o jornalismo tem de bom. E isso inclui o compromisso com a verdade, com a população e com a necessidade de informar o que é de interesse público. A série cita Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), em diversos momentos. Assim como o personagem da clássica história, os personagens de The Newsroom acreditam que precisam espalhar a verdade a que eles têm acesso para os demais, desprovidos das informações deixadas de lado pelo restante da mídia pelo fato de elas não serem rentáveis à empresa. Por isso, há constantes conflitos da redação com o departamento de marketing. Aliás, essa conturbada relação também aparece em alguns momentos do filme Conspiração e Poder.

Vale dizer, contudo, que a verdade mesmo jamais conheceremos. Sem provas, não há como dizer que Bush recebeu tratamento diferenciado no exército. Isso pode ser um fato ou pode ser algo criado por documentos forjados que acabaram gerando essa dúvida.

Vale salientar que toda essa situação ocorreu em período eleitoral. O pai de Mapes a chamou de liberal, em entrevistas à imprensa na época do escândalo, e disse que ela era feminista radical (como se isso fosse algum tipo de ofensa). Mapes não falava com o pai havia anos. O filme deixa claro que havia muita mágoa na relação que ela tinha com o pai. Quando criança, Mapes sofria com o pai alcóolatra e violento, mas nunca pedia para ele parar. Porque ela queria passar a imagem de que era forte. Mas ao ver o que ele estava falando dela para os jornalistas, Mapes pediu que parasse. E essa cena é muito impactante. Na verdade, é, para mim, a mais intensa de todo o filme.

Com essa ausência do pai em sua vida, é lindo ver a relação que ela desenvolve com o âncora do jornal.  É só amor ali, um pelo outro, e de ambos pelo jornalismo.

E é esse amor que conecta todos os personagens.

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Em um dos episódios de Supergirl (calma, eu não fugi do tema!), Alex, a irmã da heroína, questiona seu chefe do porquê ela ter conquistado sua vaga na instituição que investiga alienígenas inimigos e pergunta se foi por causa do seu parentesco com a Kara que ela foi aceita. A resposta é afirmativa, mas ele ressalta que aquele era só o motivo de ela ter entrado na companhia, não a razão por ali ter permanecido. Quanto a isso, ele completa dizendo que o desempenho dela, e unicamente dela, é o que justifica as suas conquistas.

Nossas escolhas profissionais são semelhantes a este caso. Assim, percebi que, depois de um tempo, não importa por que escolhemos o Jornalismo. O que importa é por que permanecemos nele. E ele em nós.

A segunda temporada de The Newsroom subiu muito no meu conceito devido à semelhança que ela apresenta ao caso real do 60 Minutes 2. Antes, não gostava tanto por achar que fugia da realidade. Mas a arte às vezes também imita a vida. Esta série pode não ter seu roteiro baseado em fatos reais, mas tem muitos aspectos da realidade ali contida. Sem contar as maravilhosas cenas em que vemos os bastidores da produção de notícias. ❤

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Bastidores ❤

E quer ver uma arte mais bonita do que a própria representação do real? Por isso amamos o jornalismo. Somos Dom Quixotes.

A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais.

Assistindo ao documentário “She is Beautiful when she’s angry” (Ela fica linda quando está com raiva), dirigido por Mary Dore, me deparei com mulheres fantásticas que lutaram por seus direitos, nos EUA, nas décadas de 60-80.

É incrível e, ao mesmo tempo, assustador vermos que os anos passam e ainda usamos os mesmos discursos, pelo simples fato de que nossa sociedade parece não conseguir se livrar da visão de mundo machista que a domina.

Eu me identifiquei com muitas falas das feministas presentes no doc, sendo que a produção é sobre a luta das mulheres que ocorreu há mais de 40 anos. Protagonistas maravilhosas que, desde aquela época, já entendiam sobre as desigualdades de gênero que contaminam o mundo e, hoje, infelizmente, ainda precisamos lutar, da mesma forma, porque por mais que a gente tenha evoluído, ainda estamos longe de estar num mundo ideal para a população do gênero feminino.

No longa de uma hora e trinta e dois minutos, as entrevistadas contam que elas exigiam igualdade de salários, direito ao aborto, eram contra o abuso e a violência dos homens, lutavam por mais creches – onde elas pudessem deixar seus filhos e irem trabalhar assim como seus respectivos maridos – entre outras exigências, que são o mínimo, para que finalmente possamos ser vistas de igual para igual e não submissas aos homens.

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“Se os homens pudessem engravidar, anticoncepcionais estariam disponíveis em máquinas de chiclete.”

No discurso de uma das entrevistadas, ela comenta como elas, nos anos em que iniciaram os movimentos feministas, mal sabiam sobre o movimento das Sufragistas, ocorrido no final do século XIX e início do XX, na Inglaterra. Por sinal, essa história foi muito bem retratada no filme “As Sufragistas” (2015).

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“Nunca desista da luta.” E tem a participação de Meryl Diva Streep.

Com isso em mente, tentei lembrar dos tempos de escola e, me veio a cabeça, que eu mal ouvi falar das lutas das mulheres, no máximo pelo direito dos votos e olhe lá. E isso é um erro extremo, pois nós temos e devemos aprender sobre as incríveis mulheres do nosso passado, que conquistaram tanta coisa por nós, pessoas das quais devemos nos orgulhar e nos inspirar e buscarmos forças nessa batalha que persiste até os dias atuais.

Tantas histórias de líderes homens, visionários, outros, não, e as mulheres, parece que são sempre deixadas de lado. A não ser que tenham sido princesas ou rainhas, é raro escutarmos na sala de aula do ensino fundamental e médio, sobre os direitos e lutas das mulheres, que ocorrem há anos, pelo simples fato de que, culturalmente falando, não faz sentido ensinar pequenas meninas sobre seus direitos, já que os homens se sentem ameaçados com nossas conquistas e insistimos nesses ensinamentos conservadores e retrógrados.

Algumas das feministas entrevistadas no documentário “She is Beautiful When she’s Angry”.

Além disso, um assunto bastante interessante que elas mencionam na produção, é o fato de existirem divisões dentro do próprio feminismo, e isso me fez refletir e questionar o meu feminismo.

O projeto nos mostra líderes de vários movimentos feministas e, como as mulheres negras e as lésbicas, acabavam formando seus próprios grupos, pois não se identificavam com a luta das mulheres cis brancas e heteros. Lembrei de textos como “Jout Jout, Clarice e o feminismo branco” e “Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas?” do site fridadiria.com, em que o movimento feminista é questionado, pois, na maioria das vezes, ele é voltado para mulheres cis, brancas e heteros.

É um assunto delicado, mas deve ser debatido sempre. Uma das representantes que aparece no documentário, comenta que, as militantes, quando exigiam seus direitos, eram chamadas de lésbicas pelos homens e, em sua visão, se elas começassem a lutar pelos direitos Lgbts, acabariam dando crédito à essa visão.

Assim, ela argumentou que, nos anos de 60-70, optou por lutar pelos direitos das mulheres, sem envolver a homosexualidade, por exemplo, e, que, depois de conquistas, seria a hora de lutar por outras vertentes.

No entanto, não podemos nos esquecer que uma mulher lésbica sofre com o machismo por ser mulher e por ser lésbica. Primeiro que lésbica não deveria ser uma ofensa. Segundo que, acaba sendo usado pelos homens e, até mulheres, como ofensa, pois lésbicas são rechaçadas e consideradas como pessoas do gênero feminino que querem ser do sexo masculino ou mulheres que ainda não encontraram o homem certo em suas vidas. Então como pedir pra elas deixarem sua sexualidade de lado, se isso é essencial em sua luta?

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“Fail” total!

Além disso, não podemos negar que uma mulher negra sofre muito mais preconceito e machismo em nossa sociedade, do que uma mulher branca. Infelizmente isso acontece, então como podemos dizer “primeiro conquistamos o direito das mulheres, depois vemos a questão racial”, sendo que uma mulher negra lida com o machismo e racismo todos os dias de sua vida?

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“Nunca deixe que ninguém a faça sentir como se você não importasse.” Michelle Obama sempre maravilhosa.

Sem contar as mulheres de baixa renda que, quase nunca, tem a chance de erguer suas vozes. Para isso, filmes como “Que horas ela volta?” da Anna Muylaert são importantíssimos e maravilhosos, pois nos fazem refletir essas questões.

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Poster do Filme, com Regina Casé.

Quero deixar claro que eu não sou a melhor pessoa para falar sobre a questão racial ou social, pois não vivo essas dores de perto, porém, cada vez mais, me posiciono para ler, refletir e estudar sobre essas questões, ouvindo o outro lado e, assim, entendendo como posso inserí-las no meu feminismo. Lendo e aprendendo, eu cito a Nathalia Rocha, idealizadora do Frida Diria, no texto”Nicki, Rihanna e o feminismo branco:

E, colocando uma mulher negra que se posiciona contra o racismo como barraqueira, a mídia e a sociedade só contribuíram para apagar o debate e manter uma visão racista sobre as pessoas negras. E é isso que o feminismo branco deveria entender. Dentro do movimento, somos tratadas como “nós”, como “manas”, mas, na prática, o que vemos é um debate que abarca “todas” as mulheres como se todas as mulheres tivessem os mesmos problemas. Na prática, mulheres brancas colocam o seu bem-estar e as suas pautas acima dos problemas das mulheres negras e chamam isso de feminismo.

Apesar do assunto em questão ser a discussão em torno de um desabafo da Nicki Minaj no Twitter e a resposta da Taylor Swift, no ano de 2015, ele me ajudou a compreender um pouco melhor sobre como me posicionar a respeito da luta das mulheres negras.

Essa questão é importante de ser debatida, pois a ideia não é defender a violência de mulheres contra mulheres, mas, sim, lutar por um feminismo universal, abrangendo e respeitando todas as suas vertentes, para que todas as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, em qualquer lugar do planeta, e não somente em sua respectiva comunidade ou grupo racial, étnico, etc.

Querendo ou não, nossa posição é contra a supremacia do homem cis, branco, hétero e rico, logo, precisamos achar um jeito de incluirmos todas as causas que qualquer mulher passa e, assim, a gente finalmente conquistar a tal justiça que queremos e merecemos.

Parece utópico, mas não é. Temos que nos unir, tendo empatia pelas dores alheias, apoiando umas às outras, nessa luta contra o machismo. Para isso, temos que usar nossa maior arma: a FALA. E claro, sempre ouvirmos umas as outras, até porque, se ficarmos contra ou nos separarmos, quem perde somos nós mesmas.

Não estamos erradas em exigir direitos iguais e faremos isso juntas, expondo todas as injustiças do nosso dia a dia e exigindo mudanças, até que finalmente o machismo desapareça de nossas vidas.

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“Mulheres de todo o mundo, unam-se!”

Para quem tem interesse de assistir ao documentário, ele está disponível no Netflix e em DVD. Ademais, também é possível ter informações do projeto, incluso sobre as feministas entrevistadas, no site <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/women/>.

BIBLIOGRAFIA

MOTTA, Thamires. Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas? 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/seu-feminismo-acolhe-mulheres-lesbicas/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

MOURA, Gabriela. Jout Jout, Clarice e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/jout-jout-clarice-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

ROCHA, Nathalia. Nicki, Rihanna e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/nicki-rihanna-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 09 de jan. 2017.

SHE IS BEAUTIFUL WHEN SHE’S ANGRY. 2014. Disponível em: <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/the-film/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.