Jane, A Virgem: o dramalhão mais divertido da atualidade

Sabe aquela série que você assiste o primeiro episódio e acha meio “bleh”? Então, eu assisti  Jane, The Virgin e não me apaixonei, no entanto, por uma sorte muito grande, recentemente eu insisti nessa série e finalmente DEU MATCH!

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Cartaz da série.

SINOPSE: Jane é uma jovem religiosa que trabalha como garçonete em um hotel em Miami e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando sua médica acidentalmente faz uma inseminação artificial nela. Agora, Jane precisa tomar a maior decisão de sua vida.

O piloto da série não me convence tanto porque fazer inseminação artificial na paciente errada é um erro médico gravíssimo e uma clínica série nunca faria isso. Porém, depois de conhecer melhor a médica que comete o erro e entender que esse acidente foi só o impulso da série, eu ignorei esse detalhe e fui me encantar com tamanha criatividade e diversidade numa série americana.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que essa série é uma adaptação da telenovela venezuelana Juana, la virgen (2002). Eu não acompanhei a novela, mas a série é bastante fiel aos clichês de novelas, o que dá um charme ao programa.

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“Mas eu nunca fiz sexo!”

1) Representatividade Latina

Pra quem está acompanhando o que tem acontecido em Hollywood sabe que muitas celebridades estão falando abertamente sobre os abusos, machismo e a falta de punição aos opressores. Além disso, existem outras reivindicações, como uma maior diversidade na frente e por trás das câmeras.

Ou seja, ninguém aguenta mais ver macho hetero branco sendo protagonista porque o mundo vai além de macho branco. Sendo assim, uma maior diversidade seria dar protagonismo as mulheres, aos negros, personagens LGBTQ e de outras nacionalidades, por exemplo.

Com isso, acredito que a série Jane, A Virgem teve êxito nesse quesito, pois a protagonista é uma jovem mulher, interpretada pela atriz Gina Rodriguez, que vive com sua mãe e sua avó, é descendente de venezuelanos e todas falam espanhol. Aliás, a avó só fala a língua espanhola e nada de inglês.

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Aleluia mesmo!

2) Além dos esteriótipos

Para quem está acostumado com novelas sabe que esse tipo de narrativa usa e abusa de esteriótipos e isso é cansativo. Apesar de Jane, The Virgin ser carregado de esteriótipos, a trama usa isso como artifício de humor e, em alguns casos, para nos fazer refletir.

Por exemplo, a Alba (Ivonne Coll), avó de Jane, entrou ilegalmente nos EUA e ela teme que o governo descubra e a deporte. No entanto, o público se encanta com a “abuela” e a gente começa a entender o lado humano e toda vez que ela corre o risco de ser deportada, a gente sofre junto com ela e torce para que isso não aconteça.

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Sim, sim, é amor por você Alba.

Além disso, Alba é uma mulher absurdamente religiosa e foi justamente ela quem convenceu Jane a se casar virgem. Porém, ao mesmo tempo em que é bastante conservadora, ela quebra tabus quando se trata de amor e família, pois sua filha e mãe de Jane, Xiomara (Andrea Navedo), engravidou aos dezesseis anos de idade e criou a filha sozinha com a ajuda da mãe.  Eu não resisto quando tem um núcleo de família em que mãe, filha e neta são super próximas e o porto seguro uma da outra.

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Suas lindas!

3) Mulheres independentes

Falando na Xiomara, a história dela é muito interessante também. Ela engravidou muito nova, contou ao rapaz e ele pediu que ela fizesse um aborto, só que ela seguiu o caminho oposto e criou sua filha sem ajuda nenhuma do pai.

Ademais, ela é aquele mulherão que conquista os homens e ela aproveita isso bastante. Ao longo dos anos, Xiomara se relacionou com vários homens e teve poucos relacionamentos sérios, por escolha própria. Numa sociedade tão conservadora quanto a nossa, essa personagem seria bem crucificada, mas o que a gente vê é uma mãe religiosa que apesar de criticar a filha, nunca a abandonou.

E claro, não posso me esquecer que o sonho de Xiomara é ser uma cantora famosa, mas como ela teve filha muito cedo acabou deixando este sonho de lado. No entanto, agora que sua filha já está crescida, ela continua atrás do seu sonho e a gente sofre com as rejeições que ela tem por ser uma mulher mais velha e torce para que ela tenha seu momento de brilhar.

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Você mesma, Xiomara!

Continuando a listinha, a própria protagonista é um ótimo exemplo de mulher independente. Ela acabou de se formar, não aceita os vacilos dos homens ao seu redor, mesmo quando está mega apaixonada, investe no seu sonho de ser escritora, optou por continuar virgem até o casamento – eu acho isso ótimo porque assim como a mulher tem o direito de transar quando achar que deva, ela também pode fazer essa escolha de se resguardar, cabe a cada mulher (homem também) decidir a hora certa de perder a virgindade – e segue adiante enfrentando tudo o que vem pela frente.

Ainda, aproveito para fazer propaganda da atriz que interpreta Jane, a Gina Rodriguez. Ela luta bastante pela boa representatividade da cultura latina no audiovisual norte-americano, que insistiu por anos em usar esteriótipos ofensivos e repetitivos e agora está dando voz a várias culturas que merecem esse espaço.

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“Esse prêmio vai além de mim. Ele representa uma cultura que quer se ver como heróis.”

Para não falar de todas as personagens mulheres que existem na série, vou terminar a listinha com a Petra Solano (Yael Grobglas).

A Petra é a vilã e rival de Jane, sim ela é um estereótipo que eu particularmente detesto, pois faz de tudo para manter seu homem e ter dinheiro. Entretanto, há algo que eu gosto bastante nessa personagem que é o passado dela e os relacionamentos abusivos que ela vive e como é IMPORTANTE debater isso.

Não irei adentrar na história dela porque seria um baita spoiler, mas direi o seguinte: ela se envolve com homens muito agressivos e vive relacionamentos absurdamente abusivos e, mesmo sendo a vilã da história, a gente sente a dor dela na pele quando ela passa por algum tipo de agressão física ou verbal. A verdade é que homem NENHUM tem o direito de encostar o dedo em alguma mulher de forma violenta ou sem a autorização dela e, independente de ser amiga ou não da mulher em questão, sempre a defenderei de homens machistas que merecem estar na cadeia.

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Feminismo sempre!

4) Representatividade LGBTQ

Apesar de não ter muitos personagens LGBTQ, ao menos não na primeira temporada, o casal Rose (Bridget Regan) e Luisa (Yara Martinez) foge de muitos esteriótipos que estamos acostumados a ver sobre lésbicas.

A história delas é tão louca quanto a do casal protagonista, mas não existe homofobia ou queerbaiting*. Rose é casado com o pai de Luisa, porém elas se envolveram antes de saber desse detalhe e acabaram se apaixonando de verdade.

É difícil falar desse casal sem dar spoiler, no entanto, o que eu acho legal é ver duas mulheres lindas que realmente se apaixonaram uma pela outra e tentam viver essa paixão de alguma forma. Como nenhum casal é normal nessa série, acho mega válida a história delas e AMO todas as cenas em que elas aparecem juntas!

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Rose e Luisa.

5) Os homens da série

É complicado falar de macho sem se decepcionar, ainda mais com tudo o que tem acontecido em Hollywood, todavia, eu gostaria de dar destaque a alguns personagens masculinos.

Vamos começar pelo Michael Cordero Jr. (Brett Dier).

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Michael e Jane.

Ele é um policial, todo certinho, completamente apaixonado pela namorada, que é a Jane e, o que eu acho mais incrível, é que eventualmente ele aceita o fato de que Jane decidi continuar com a gravidez – mesmo tendo sido um erro médico e não sendo filho dele – e ele não age de forma agressiva com ela, como muitos homens agiriam no lugar dele.

Sim, esse personagem comete erros e faz umas machices que cansam, mas ele nunca usa a força física para se impor ou tentar diminuir Jane ou as mulheres a sua volta e, por isso, eu tenho que parabenizá-lo. No mundo em que vivemos, o que eu mais vejo são personagens masculinos, policiais ou não, absurdamente agressivos e grosseiros e ver um que foge desse padrão me deixa contente.

Como ainda estou na primeira temporada, não sei se há alguma mudança brusca no comportamento dele, mas até agora eu gosto bastante da forma como ele age e acho fofo o quanto ele é apaixonado pela Jane.

Agora, vamos ao Rafael Solano.

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Rafael Solano

O maior playboy, filhinho de papai, mas que durante sua jornada na trama tem uma evolução de caráter muito grande. Digamos que ele era o típico Joey e Barney (só que bonito) e isso desanima bastante, porém ele tem câncer e descobre que somente poderá ter filhos com a amostra de esperma que foi acidentalmente inseminado na Jane, ao invés de sua namorada.

A temporada vai seguindo e ele passa a enxergar Jane de um jeito diferente, se apaixonando e se transformando num cara determinado a esperar pelo casamento para finalmente transar com ela, ser pai e constituir uma família.

Acontece muita coisa doida na vida dele, então é possível entender alguns surtos que ele tem, mas eu gosto do jeito que ele vai amadurecendo e melhorando na narrativa.

Por último, o personagem masculino que mais me diverte, Rogelio de La Vega (Jaime Camil).

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Sou eu mesmo.

Rogelio é um ator famoso de telenovelas que só fez sucesso depois dos trinta e nove anos, absurdamente dramático e pai biológico de Jane. Na época, ele não ficou sabendo que Xiomara continuou com a gravidez e só soube da existência de sua filha quando ela já tinha vinte e três anos de idade. Assim, ele decide recuperar o tempo perdido e dá uma de “paizão”.

Apesar do desastre que ele é, fazendo tudo de uma forma épica e exagerada, eu acho muito fofo o jeito que ele se encanta pela filha e como se esforça pra recuperar o tempo perdido. Além disso, ele acaba se apaixonando de novo pela Xiomara e eu AMO o casal Xiomara e Rogelio. É o núcleo mais divertido da série e pra quem gosta de “draminha”, vulgo mimimi, vai se divertir horrores com eles dois.

E claro, por fim, quem interpreta a mãe do Rogelio é a atriz Rita Moreno, a “abuela” de One Day at a Time, deusa, maravilhosa, mais amada do Netflix, que eu falo no meu post anterior.

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Rogelio e Xiomara.

Sendo assim, assistam a série e não julguem sem pelo menos assistir a primeira temporada, pois Jane, The Virgin é uma série de comédia incrível!

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Elenco principal da série.

*queerbaiting – uma estratégia midiática utilizada na indústria do entretenimento para atrair o público que foge do padrão da cis-heteronormatividade. Ele se concretiza quando há alguma espécie de tensão sexual ou romântica entre personagens do mesmo gênero, tendo o intuito de tornar a produção representativa, mas sem desagradar a parcela conservadora da audiência.

One Day At A Time: a sitcom mais incrível da atualidade

Preciso compartilhar com o mundo minha mais recente descoberta na Netflix, a sitcomOne day at a Time.

Música tema e abertura da série, cantada pela Gloria Estefan.  É uma das poucas séries que eu faço questão de assistir a abertura de todos os episódios porque eu fico dançando também.

A série conta a história de uma família de cubanos que mora nos EUA. A “abuelita”/Lydia, interpretada pela rainha Rita Moreno, foi embora de Cuba muito cedo, devido aos problemas políticos, deixando parte de sua família para trás e começando uma nova nos Estados Unidos.

Apesar da perda, a narrativa nos leva para uma nostalgia muito grande por parte da avó, onde aprendemos e sentimos de perto sua dor, além de nos trazer problemas bastante atuais com a história dos netos e da filha.

One day at a time é um remake* de uma sitcom com o mesmo nome. A série foi exibida entre os anos de 1975 – 1984 no canal CBS no EUA, tendo um total de nove temporadas.

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Cartaz da série original.

A série original contava a história de Ann Romano (Bonnie Franklin), uma mulher recém divorciada que se muda para a cidade de Indianapolis com suas duas filhas.

Apesar de ser uma série antiga, ela também abordava assuntos bastante delicados pra época, como uma mulher divorciada que, ao mesmo tempo em que quer educar as filhas, quer dar a liberdade que ela nunca teve quando mais nova.

O remake da Netflix segue o mesmo caminho, atualizando os papeis dentro da família e alguns temas abordados.

1) Lydia ou “Abuelita” (Rita Moreno)

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Rita Moreno como Lydia.

Quem é a melhor personagem e porque é a “abuelita”?

Sinceramente, nem sei como começar a falar dessa personagem. Eu amo a Lydia de todas as formas! Ela é absurdamente engraçada, mas também nos faz chorar toda vez que ela relembra seu passado, é conservadora, mas aceita toda a diversidade que está presente em sua casa, ela faz drama, drama, drama, ou seja, ela é simplesmente incrível.

Eu tenho esse carinho especial pela “abuelita”, pois a associo com pessoas da minha vida, como minhas tias por parte de pai. Assim como Lydia, minhas tias eram musas inspiradoras quando jovem, os homens babavam por elas – e babam até hoje – e foram mulheres absurdamente corajosas e guerreiras, então não tem como eu não me apaixonar por essa personagem. Tudo nela é encantador e é só ela abrir a boca que eu já estou rindo com suas maluquices.

Para não ficar uma hora falando desse amorzinho de pessoa, vou fechar com uma notícia que enche meu coração de alegria. A atriz que interpreta a Lydia é ninguém mais, ninguém menos, que Rita Moreno. Moreno é uma atriz, cantora e dançarina porto-riquenha, ganhadora do Oscar, Emmy, Grammy e Tony, que tem 86 anos de idade e esbanja juventude, talento e carisma. Quer mais o quê?

Vídeo feito pela Netflix em homenagem a carreira de Rita Moreno.

2) Penelope (Justina Machado)

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Justina Machado como Penelope.

Penelope é filha de Lydia, nascida nos Estados Unidos e ex-veterana de guerra. Quando sua filha mais velha, Lena, nasceu, ela e seu ex-marido decidiram se realistar no exército devido ao ataque terrorista de 11 de setembro em Nova Iorque. Anos depois, ela voltou para o EUA e, atualmente, mora com os filhos e a mãe em Los Angeles, onde trabalha como enfermeira.

Essa personagem tem uma trajetória muito interessante e quanto mais a gente conhece a história dela, mais nos apaixonamos por ela. Penelope está em processo de separação do marido por vários motivos pesados e agora cuida dos filhos com a ajuda da mãe, mas é ela quem banca os custos da casa.

Ou seja, além de ser mãe solteira e ter que lidar com todas as dificuldades que vem com esse papel, Penelope também lida com sua depressão pós-guerra. Ela toma anti-depressivos e faz terapia, mas a gente vê de perto a dificuldade que é enfrentar tudo isso e manter um sorriso estampado no rosto. Eu simplesmente adoro a veracidade dessa personagem e a força dela como mulher independente num mundo tão machista quanto o nosso.

3) Elena (Isabella Gomez)

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Isabella Gomez como Lena.

Porque ela é a segunda melhor personagem e eu a AMO tanto? Talvez seja porque Lena é FEMINISTA, MARAVILHOSA, luta pela diversidade e é contra o privilégio dos homens brancos heteros. Ela é o pacote completo da perfeição e só não é a minha favorita porque a “abuelita” me ganha toda vez que acorda dançando.

A primeira temporada mostra a descoberta da sexualidade de Lena de uma forma extraordinária. A personagem começa a questionar se ela gosta de meninas ou meninos e vai descobrindo aos poucos, de uma forma muito bastante sincera. Eu sou completamente apaixonada por essa personagem e pela narrativa abordar a homossexualidade de uma forma natural e acolhedora. Para mim, a série vale só pela jornada da Lena.

Além disso, Elena é uma personagem muito fiel as meninas e mulheres que estão cansadas de serem diminuídas por causa do seu gênero e por isso abraçam o feminismo. Eu AMO essa personagem e a riqueza que vem junto com ela. Por favor, que venham mais Lenas na televisão, no cinema, na música, no MUNDO.

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“Ei ,mãe, eu acho que gosto de garotas.”

4) Alex ou “Papito” (Marcel Ruiz)

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Marcel Ruiz como Alex ou “Papito”.

Pra quem tem um irmão, seja mais novo ou mais velho, sabe o que é ter um “Papito” na sua vida. Que menino mimado, senhor! A avó não cansa de elogiar o Alex e dizer o quão especial ele é e deixa a Lena de lado. Apesar de ser engraçado, eu vejo muito isso ao meu redor, onde só por você nascer homem, sua família automaticamente te enxerga como alguém especial.

Felizmente, isso tem mudado bastante. Com Lenas vindo por aí, dou alguns anos para os paparicos virem tanto para meninas quanto meninos, cis ou trans, heteros ou gays, não importa. Todo mundo tem um quê de especial e os privilégios vão acabar, eu tenho certeza disso.

No entanto, eu admito que na segunda temporada o Alex tem um salto gigante na narrativa e ele começa a enfrentar a xenofobia* na escola, ou seja, por ele ser descendente de cubanos, ele é ofendido o tempo todo. É muito incrível a forma como a série aborda esse assunto e, pela idade dele, eu fico boba quando ele dá uma banho de ensinamento na mãe e na avó ao aceitar super bem o fato da Lena talvez gostar de meninas assim como ele.

Tomara que os meninos que estão vindo por aí aprendam com esse personagem e deixem de lado essa mania de querer socar tudo e achar que pra ser homem é preciso esconder sua dor. Homens, por favor, se libertem do machismo assim como o “Papito”, ser homem não te impede de chorar, nem de ser sensível e nem de aceitar as diferenças dos outros, pelo contrário, está mais do que na hora dos homens entrarem na luta e acabar de ver com o machismo da sociedade. Juntos somos mais!

5) Schneider e Dr. Berkowitz

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À esquerda, Todd Grinnell (Schneider), e a direita Stephen Tobolowsky (Dr. Berkowitz).

Eu queria dedicar uma seção para cada um desses personagens, mas devido a todas as acusações em Hollywood, temo estar dando espaço para quem não merece. No entanto, como esses dois personagens são muito especiais, não vou deixar de falar deles.

O Schneider é um canadense que mora nos EUA há anos e é dono do prédio em que a família da Penelope mora. Ele é um homem branco hetero mega privilegiado, mas que aos poucos vai entendendo, mesmo que MUITO DEVAGAR, o quão privilegiado ele é e vai mudando a partir do momento em que entende as vantagens que ele tem sobre os outros.

Ele tem um passado com drogas e álcool que a série ainda não abordou muito a fundo, mas que a gente começa a entender sua trajetória quando ele fala da sua família, que não parece ser tão conectada quanto a família dos seus vizinhos cubanos. No entanto, ele tem um jeito muito sensível e acaba conquistando seu lugar na família cubana que ele tanto perturba.

Já o Dr. Berjowitz é uma figura! Sério, que personagem divertido. Ele é apaixonado pela Lydia, mas ela diz que pertence ao Berto, seu falecido marido, e deixa o médico na zona de amigo e ele leva de boa. Às vezes, eu torço por esse casal, mas ao mesmo tempo eu entendo que a “abuelita” não quer e fico feliz pela série abordar essa amizade inusitada e extremamente engraçada.

No geral, gosto muito desses dois personagens, pois são homens heteros fora da caixinha, visto que eles abraçam a diversidade, choram, são amigos e sensíveis, ou seja, o tipo de homem que a gente torce pra ver na vida real. Tomara que seja o começo de personagens masculinos assim na ficção e que a era do “macho fazendo machice” acabe de vez.

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Está esperando o que para começar a maratona?

*sitcom: comédia de situação, onde existem uma ou mais histórias de humor encenadas em ambientes comuns, como família, grupo de amigos ou local de trabalho.

*remake: refilmagem de algum filme ou série antiga.

 

 

Porque é importante debater o caso Aziz Ansari?

Esses dias alguém me perguntou qual era a minha opinião sobre o caso do ator, comediante e criador da premiada série Master of None (Netflix), Aziz Ansari.

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Aziz Ansari.

Resumidamente, há alguns dias, o site Babe postou um relato anônimo, em que uma garota de 23 anos disse ter conhecido Aziz numa festa após o Emmy Awards*, onde eles trocaram telefone e tempos depois tiveram um encontro em New York.

No dia do encontro, eles jantaram e o ator a convidou para o seu apartamento. Ela aceitou e, chegando lá, ele acelerou as coisas e a deixou numa situação desconfortável. Eis uma parte do relato:

“Meu desconforto estava explícito, eu me afastava e contestava. Sei que minha mão parou de mexer, eu congelei (…) Eu acredito que Aziz tenha tirado vantagem de mim. Eu não fui ouvida e fui ignorada. Foi de longe a pior experiência que eu já tive com um homem”.

Antes de mais nada, quero dizer que me considero feminista, mas a cada dia aprendo mais e mais. Obviamente, se aprendo é porque eu questiono as coisas, ouço relatos, converso, debato e leio, leio muito. Estou dizendo isso para que saibam que eu não sou especialista em nada, eu só gostaria de abrir um debate sobre esse assunto e expor minha opinião também.

Minha visão da situação é a seguinte: Pelo relato da moça, no lugar dela eu estaria desconfortável também e talvez não soubesse verbalizar um Não. A maioria das pessoas está dizendo “Porque ela não disse não?” Porque ela não foi embora?”, inclusive saiu uma reportagem no New York Times com um péssimo título “Aziz é culpado sim. De não ler mentes”, onde a autora claramente desqualifica o relato da moça.

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Nada legal.

Eu não acho que o Aziz seja um cara ruim e essa situação está longe de compará-lo com casos piores que estão circulando Hollywood, no entanto, acho que existem níveis diferentes de abuso e a base de tudo começa justamente com o cara legal.

As pessoas tem a mania de achar que homens que cometem estupro, assédio e abusos são monstros, mas, na verdade, eles são homens normais criados dentro de uma sociedade machista. Nossa sociedade é absurdamente machista e ninguém escapa disso, porém, por sorte, muitos começam a refletir, especialmente as mulheres, e entendem o quão ruim é essa cultura machista, misógina e opressora.

Sinceramente, o caso do Aziz foi leve comparado com outros casos vindo à tona na imprensa, mas não foi nenhum pouco legal. No relato, a  jovem diz que falou mais de uma vez que não queria transar e ele insistiu mesmo assim. Então eu já me pergunto, onde foi que ela não verbalizou? Se a pessoa diz que não quer transar, ela NÃO quer transar e ponto. Porque insistir?

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Deusa Michelle me representa, “PORQUE?”

Eu vi algumas pessoas falando nas redes sociais “Mas ela aceitou ir pro apartamento dele para fazer o quê, brincar de adoleta?”. Gente, quer dizer que se a mulher aceita ir no apartamento do cara, obrigatoriamente ela tem que transar com esse cara? Talvez ela estivesse afim de transar, mas quando chegou lá ela mudou de ideia. Entretanto, pela lógica de alguns, se ela topou ir para o apartamento dele, ela teria que transar porque já era tarde demais para mudar de ideia.

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Print com alguns comentários no facebook.

AMIGOS(AS), apenas parem com essa mentalidade! Ela tem todo o direito de mudar de ideia e ponto final. Inclusive, ela tem o direito de aceitar o convite para ir no apartamento de um homem e não ter segundas intenções, pois nem tudo é sexo. Pelo relato dela, ela parecia realmente interessada em conhecê-lo melhor. Já ele, parecia querer sexo, mas se um não quer, NINGUÉM FAZ E PONTO FINAL.

Acho que tem muita gente revoltada achando que esse caso diminui as acusações de outras mulheres sobre casos de assédio, outras estão achando que agora as mulheres querem reclamar de tudo, quando, na verdade, o Aziz é considerado um cara legal, se diz feminista e apoia a causa das mulheres, mas vacilou feio. Se mulheres em situações parecidas com essa não expressarem seus sentimentos agora, caras legais como o Aziz provavelmente vão continuar agindo assim, até correr o risco de fazerem coisas piores.

Não estou dizendo que ele irá fazer algo pior e tampouco acusando ele disso ou daquilo, mas eu sou sempre a favor das mulheres falarem abertamente sobre seu desconforto, mesmo que o caso tenha uma gravidade menor que outros, para a gente possa debater e entender o ponto principal: A cultura machista está impregnada na nossa sociedade e ela afeta a todos nós, especialmente as mulheres. Enquanto uma mulher passar por situações em que ela não consiga expressar sua voz, é mais do que necessário o debate e a reflexão para a gente entenda onde está o problema e tentar consertá-lo da melhor maneira possível.

Ou seja, é importante parar de diminuir a dor ou desconforto de outra mulher. Mesmo que na situação dela você agisse diferente, lembre-se que não é toda mulher que consegue se impor. Nossa cultura sempre ensinou e ainda ensina as mulheres a se preocuparem mais com o bem estar alheio do que com o dela próprio.

Se uma mulher faz um relato desse e todo mundo silencia ela, tentando ensiná-la o que ela deveria fazer e ninguém tenta debater com o homem da situação, sobre o que ele deveria ter feito, a gente continua cometendo o mesmo erro “Culpar as mulheres!”

Vamos elevar a gravidade dessa história e olha onde podemos chegar:

“Mas porque ela estava com uma roupa tão curta?”, “Porque ela não gritou?”, “Porque ela saiu sozinha tão tarde da noite?”.

Você não acha que tem algo parecido nessas situações?

O assunto e a história são mais suaves que outros, mas é a voz de uma mulher desconfortável e ninguém pareceu preocupado em dialogar com o Aziz e dizer o que ele poderia ter feito nessa situação, como ter perguntado – “Poxa, porque você está desconfortável?, “Você quer que eu pare por aqui?”, “O que eu posso fazer para te deixar mais confortável?”. Essas são algumas poucas perguntas que ele poderia ter feito no momento e que talvez ajudasse a situação.

Por fim, gostaria de dizer que estou aberta ao debate e eu quis expor minha opinião, pois sei que muitas mulheres já viveram situações parecidas e não entenderam o porquê do desconforto, achando que foi apenas um encontro ruim, enquanto eu acredito que há um problema maior por trás disso. Talvez sim, tenha sido um encontro ruim, mas talvez e muito provável tenha a ver com nossa cultura machista e opressora.

Notas finais

Sobre o Aziz, acho que foi algo positivo ele não ter negado a história e ter relatado a visão dele, pois demonstra interesse da parte dele em mudar ou se redimir. Mas isso pode ser só impressão minha. Segue o depoimento do artista:

“Em setembro do ano passado, eu conheci uma mulher em uma festa. Nós trocamos telefones. Nós enviamos mensagens e eventualmente saímos em um encontro. Nós saímos para jantar e depois nos envolvemos em atividade sexual, que por todas as indicações eram completamente consensuais. 

No dia seguinte eu recebi uma mensagem dela dizendo que ‘apesar de ter parecido ok’, após ter refletido ela se sentiu desconfortável. É verdade que tudo pareceu ok para mim, então quando eu soube que não era o mesmo para ela eu fiquei surpreso e preocupado. Eu ouvi suas palavras e respondi privadamente depois de ter tido o tempo para processar o que ela disse.

Eu continuo apoiando o movimento que está acontecendo em nossa cultura. É necessário e há muito tempo atrasado”. 

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Print do depoimento original.

Sobre a jornalista do New York Times que escreveu que o Aziz deveria ler mentes, acho que fica a reflexão: Num mundo onde as vozes das mulheres pouco são ouvidas, será que vamos ter que ensinar os homens a lerem mentes?

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Vai saber…

*Emmys Awards:  o maior e mais prestigiado prêmio atribuído a programas e profissionais de televisão.

BIBLIOGRAFIA

BABE. I went on a date with Aziz Ansari. It turned into the worst night of my life. 2018. Disponível em: https://babe.net/2018/01/13/aziz-ansari-28355. Acesso em: 17 de jan. 2018.

EL PAÍS. “Por que ela não foi embora?”: a acusação contra Aziz Ansari abre um debate que nos atinge bem de perto.” 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/15/cultura/1516034198_916720.html. Acesso em: 17 de jan. 2018.

OMELETE. Aziz Ansari é acusado de abuso sexual e responde alegações. 2018. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/aziz-ansari-e-acusado-de-abuso-sexual-e-responde-alegacoes/. Acesso em: 17 de jan. 2018.

 

Estrelas Além do Tempo

É provável que você já tenha ouvido falar no filme Estrelas Além do Tempo, que está concorrendo na categoria de Melhor Filme no Oscar 2017, mas, já parou pra pensar sobre o por quê só ouvimos falar na história de Katherine, Dorothy e Mary em pleno 2017?

Para refletir o assunto, resolvi fazer uma pequena análise do filme, pois devemos falar dessa obra-prima, além de enxergar o que está por trás desse “silêncio” todo.

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Filme escrito por Allison Schroeder e Theodore Melfi – também diretor do filme – e baseado no livro de Margot Lee Shetterley.

Sinopse: Estrelas Além do Tempo conta a história de uma equipe de matemáticas afroamericanas que tiveram um papel vital na NASA durante os primeiros anos do programa espacial dos EUA.

O filme se passa na década 60, no auge da corrida espacial travada entre Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria, e mostra uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres negras, que lideraram uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornaram verdadeiras heroínas da nação.

Ou seja, a história se passa há mais de 40 anos atrás e, somente no final de 2016, que fomos apresentados a essas incríveis mulheres, que, mesmo sendo rechaçadas e desrespeitadas em seu ambiente de trabalho, deram um show de inteligência, humanidade e talento, deixando os homens brancos muito atrás.

Sendo assim, nada mais justo do que falar sobre as protagonistas dessa fantástica história.

1) Katherine Johnson

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Katherine Johnson e Taraji P. Henson

Katherine (Taraji P. Henson) é a gênia da matemática, não sendo à toa que ela foi convocada para trabalhar num setor onde só homens brancos trabalhavam e teve de enfrentar todo o desprezo, machismo e racismo dos colegas de trabalho, para finalmente provar sua capacidade intelectual.

É incrível a força dessa mulher e como ela consegue silenciar todos a sua volta, através do seu talento e coragem. Além disso, é de chocar as atitudes dos homens e, também, das mulheres brancas, que insistiam em impor a sua falsa superioridade.

É doloroso assistir as cenas em que a personagem é obrigada a mudar de prédio para ir no banheiro feminino de “pessoas de cor” ou tomar café em uma cafeteira exclusiva, também para “pessoas de cor”.

No entanto, Katherine dá um show de habilidade e deixa todos seus colegas com inveja, quando, graças a ela, a disputa espacial vira a favor de seu país. Assim como eu digo que a escrita é minha grande aliada, é possível perceber que os números são os aliados de Katherine, pois, como ela mesma diz: “Números não mentem!”

 2) Dorothy Vaughan

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Dorothy Vaughan e Octavia Spencer

Dorothy é a líder das mulheres negras matemáticas e, mesmo tendo que lutar a todo instante para assumir o cargo de supervisora, ao qual relutam muito para nomeá-la, consegue mostrar seu dom para liderar um time com tamanha maestria.

Além disso, é emocionante a forma como ela não desiste de sua ascensão no trabalho e é desgastante assistir as sequências em que Dorothy é desmotivada e deixada de lado pela secretária Vivian Michael (Kristen Dunst), enquanto tudo o que ela quer é assumir o cargo de supervisora, ao qual já era seu por direito.

Todavia, quando a gente vê nossa heroína incentivando sua equipe e decodificando as novas máquinas da NASA, dá vontade de gritar e pular, de tanta alegria e admiração por ela. Assim, Dorothy se tornou a primeira supervisora mulher e negra da história da NASA.

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Vivian e Dorothy.

3) Mary Jackson (Janelle Monáe)

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Janelle Monáe e Mary Jackson

Mary se consagrou como a primeira engenheira negra da NASA e teve um papel muito importante, não só na história da corrida espacial, como na história da vida acadêmica dos EUA, pois ela conquistou o direito de se tornar estudante de engenharia e foi a primeira mulher negra a conquistar o posto.

Apesar de aparecer menos que as outras personagens, sua narrativa é maravilhosa e seu jeito decidido a torna muito especial. O filme começa com as três mulheres consertando o carro enguiçado e sendo abordadas por um policial branco e, ao explicarem a situação, nos divertirmos com a cena em que Mary dirige o carro e “persegue” o policial, já que, até então, o “vilão” e “bandido” era ele com todo o seu machismo e racismo.

Ademais, uma das melhoras falas do roteiro, é quando Mary é questionada caso fosse um homem branco, se ela gostaria de se tornar engenheiro e ela responde “Se eu eu fosse um homem branco eu não precisaria me tornar, eu já seria um engenheiro.”

E o quê é possível aprender com essa obra cinematográfica e trazer para os dias atuais?

Infelizmente, não é difícil entender o porquê só agora essa história foi divulgada com tamanha proporção. Vivemos num mundo que, ainda, é extremamente machista e racista, especialmente na área científica e acadêmica, não sendo à toa que, na época de escola, quase não ouvimos ou nunca ouvimos falar de mulheres na área de engenharia, ciência, pesquisa, etc.

Isso é lamentável e é necessária uma mudança urgente e fica evidente o quão importante é a luta da igualdade de gênero e a luta contra a segregação racial. Como não vivo a questão racial na pele, estou longe de falar pelas mulheres negras, mas,  aprendo como ouvinte e apoio o feminismo de todas as mulheres e torço para que mais Katherines, Dorothys e Marys apareçam na vida real e na ficção.

Amei o filme e mais ainda em saber que essa história foi baseada em fatos reais e enfatiso o quão importante é representatividade e diversidade no meio cinematográfico. Como foi mostrado no site geledes.org.br, no texto Heroínas de ‘Estrelas além do tempo’ inspiram garotas em trabalho de escola nos EUA, com histórias assim, meninas podem se inspirar e aspirar por um futuro tão brilhante quanto.

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Ambrielle-Baker Rogers, Morgan Coleman e Miah Bell-Olson

Sendo assim, aconselho essa produção porque ela está incrível, muito bem escrita e dirigida, com atrizes maravilhosas no elenco, além de dar uma fantástica aula de história, ao qual nunca teríamos na sala de aula normal.

BÔNUS DO DIA

Já que estamos perto do Oscar 2017, não posso deixar de falar que Estrelas Além do Tempo está concorrendo nas categorias de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante e, é o único filme a concorrer Melhor Roteiro Adaptado escrito por uma mulher, Allison Schroeder, junto de Theodore Melfi.

Infelizmente, não foi nesse ano em que vimos mais mulheres concorrendo nas categorias de Roteiro e Direção, mas, fico na torcida por Allison Schroeder.

BIBLIOGRAFIA

IMDB. Estrelas Além do Tempo. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4846340/?ref_=nv_sr_1&gt;. Acesso em: 09 de ef. 2017.

GELEDES. Heroínas de Estrelas Além do Tempo inspiram garotas em trabalho de escola nos EUA. 2016. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/heroinas-de-estrelas-alem-do-tempo-inspiram-garotas-em-trabalho-de-escola-nos-eua/#gs.OHUiTXc&gt;. Acesso em: 09 de fev. 2017.

Moonlight: Sob a Luz do Luar

Ainda na maratona do Oscar 2017, decidi que estava mais do que na hora de falar sobre o filme Moonlight: Sob a Luz do Luar, pois ele está concorrendo na categoria de Melhor Filme e, ao meu ver, este realmente foi o MELHOR FILME de 2016.

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Filme escrito e dirigido por Barry Jenkins.

Sinopse: Moonlight narra a vida de um jovem negro desde a infância até a idade adulta, em que luta para encontrar seu lugar no mundo enquanto cresce em um bairro violento de Miami.

O filme é divido em três partes: Little, Chiron, Black. Inclusive, é possível notar esta divisão no poster do filme, aonde vemos os três rostos de Chiron, nas distintas etapas de vida – infância, adolescência e vida adulta. Sendo assim, falarei de cada fase, separadamente, sem dar spoilers*.

1) Parte 1: Little

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Alex R. Hibbert como Little.

Na primeira parte do filme somos apresentados a Chiron, mais conhecido como Little (Alex R. Hibbert), um menino de mais ou menos 9 anos de idade, bastante tímido e fechado. O ponto principal dessa fase é mostrar os dois temas que serão trabalhados no longa-metragem: machismo e homofobia.

Little tem uma relação difícil com sua mãe, Paula (Naomie Harris), pois esta é viciada em drogas e, ao mesmo tempo em que quer cuidar do filho, acaba não sabendo exercer o papel de mãe e sempre perde sua batalha para as drogas. Eu falo melhor dessa personagem no texto Oscar 2017: Melhor Atriz Coadjuvante.

Além disso, Little sofre bullying de seus “colegas” porque eles o consideram afeminado, sendo Kevin (Jaden Piner) o seu único amigo. Em uma de suas fugas, parar tentar escapar da violência dos meninos do bairro, Little se esconde em uma casa abandonada e conhece Juan (Mahershala Ali).

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Little e Juan.

Juan exerce o papel de amigo e mentor, sendo ele e sua namorada, Teresa (Janelle Monáe), os únicos a conversarem com Little e explicarem sobre homosexualidade. Aliás, essa parte do filme é bastante forte, até porque, inclusive a mãe do protagonista é homofóbica e isso se torna um peso muito grande na jornada do nosso herói.

ALERTA MINI SPOILER – que não afetará muito aos que ainda não viram o filme- : uma das cenas mais marcantes e arrepiantes da parte 1 é quando Little pergunta para Juan “Eu sou gay?” e este responde “Não sei, mas você descobrirá um dia.”

2) Parte 2: Chiron

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Ashton Sanders como Chiron.

No segundo capítulo vemos a adolescência de Chiron, fase em que este começa a responder aos estímulos do machismo e, também, se permite explorar sua sexualidade.

Chiron é um menino muito doce e carinhoso com sua mãe, que ainda é viciada em drogas. Além disso, ele continua não tendo muitos amigos e interage pouco com as pessoas de sua escola, porém, Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância, continua sendo o único menino que conversa com Chiron.

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Kevin e Chiron.

O roteiro nos mostra todo o machismo que está impregnado em nossa sociedade, desde a época de escola. Infelizmente, o bullying piora e Chiron tem de lidar com o preconceito dos rapazes de seu colégio, além de lidar com a própria dificuldade em se achar no mundo.

As primeiras duas divisões deste projeto me lembraram o documentátrio The Mask You Live In, que mostra como os meninos/homens lidam com o machismo, ao qual o Projeto Nellie Bly fala no texto A máscara que os meninos usam.

3) Parte 3: Black

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Trevante Rhodes como Black.

No último capítulo vemos toda a trasformação do pequeno Chiron, agora conhecido como Black, um homem musculoso e alto, mas, que mantém o jeito tímido e doce de ser.

É incrível ver como os preconceitos da sociedade mudam uma pessoa por completo e a narrativa de Moonlight faz isso de uma forma brilhante. Eu me emocionei em todas as etapas da trama e senti as dores do protagonista, que é sempre rechaçado e humilhado pelos outros, por fugir das normas da masculinidade.

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Black.

Chiron volta a sua cidade natal e reencontra Kevin, pessoa ao qual tem uma grande conexão, além de lidar com sua mãe, agora disposta a se livrar das drogas e tentando se reconectar com o filho.

Este filme é um alerta para todos nós, que lidamos com as dificuldades da vida e com os preconceitos do mundo, mas, como somos nós mesmos que perpetuamos esses preconceitos e esteriótipos. Enquanto o menino afeminado for um problema ou o menino tímido que não reage numa luta for humilhado e instigado a se tornar violento e opressor, estaremos dando um tiro no pé e prejudicando nosso próprio caminho como seres humanos.

É preciso, a todo o instante, falar e enfrentar o machismo e a homofobia que nos cerca, para que Chirons tenham o direito de crescer, sem medo de se amarem e se apresentarem ao mundo.

Sendo assim, para quem ainda não assistiu Moonlight, por favor, ASSISTA. Esse filme é uma obra-prima e relata assuntos tão importantes, emocionando e nos fazendo questionar até onde podemos e devemos mudar o jeito que lidamos com crianças que fogem dos padrões absurdos que, infelizmente, rodeiam nossa cultura. É uma história de autodescoberta, conexão e pertencimento ao mundo, sendo impossível não se identificar e ter empatia por Chiron.

Trailer legendado do filme.

BÔNUS DO DIA

Continuando o bolão Oscar 2017, eis meu palpite sobre a categoria Melhor Filme.

  1. Quem eu acho que vai ganhar: La La Land.
  2. Quem eu gostaria que ganhasse: Moonlight: Sob a Luz do Luar ou Estrelas Além do Tempo.

E você, qual filme acha que vai ganhar?

*spoileré quando algum site ou alguém revela fatos a respeito do conteúdo de determinado livro, filme, série ou jogo. O termo vem do inglês, mais precisamente está relacionado ao verbo “To Spoil”, que significa estragar.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Moonlight: Sob a Luz do Luar. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4975722/>. Acesso em: 07 de fev. 2017.

WIKIPEDIA.Moonlight. 2016. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Moonlight_(2016_film)&gt;. Acesso em: 07 de fev. 2017.

Oscar 2017: Melhor Atriz

A grande premiação do Oscar 2017 será no dia 26 de fevereiro e como neste ano ocorreram mudanças positivas, ainda que poucas, sobre as quais eu falo no texto Oscar 2017: os recordes como um passo para a Diversidade, eu decidi fazer uma análise do trabalho das Maravilhosas Mulheres que estão concorrendo ao prêmio.

Nesse primeiro texto falarei das performances das atrizes indicadas na categoria de Melhor Atriz.

1) Isabelle Huppert por Elle

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Escrito por David Birke e dirigido por Paul Verhoeven.

Sinopse*: Como Michèle, Isabelle Huppert interpreta uma CEO bem sucedida que se recusa a ir à polícia quando é estuprada em sua casa e decide encontrar o crimonoso por conta própria.

Esse filme me deixou um pouco dividida, pois, ao mesmo tempo em que achei a personagem principal incrível, me questionei bastante a respeito da trama. É difícil entender a relação que a protagonista tem com todos ao seu redor, mas, conseguimos entender seu jeito frio de ser.

Quando criança, Michèle sofreu um grande trauma, graças ao seu pai – quem ela repetidamente chama de monstro – e ficou conhecida como a “criança ensanguentada”.

A partir disso, entendemos o porquê da personagem não expressar qualquer tipo de emoção e, particularmente, achei que a atriz Isabelle Huppert fez isso majestosamente. É como se ela fosse um “robô” – ou alguém extremamente frígido- na maior parte do tempo, porém, nas poucas vezes em que expressa sentimentos, o público sente sua dor, especialmente na cena em que ela é violentada.

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“Não dá para inventar isso.”

Apesar de questionar um pouco o roteiro, pois muitas das cenas e diálogos não me agradaram, eu gostei de ela estar decidida a se vingar do homem que invadiu sua casa e abusou dela. Aliás, eu adorei o fato de que esta heroína não precisa e não aceita a ajuda de ninguém, até mesmo em casos extremos. Não que esta fosse a melhor opção, no entanto, é raro vermos um personagem feminino agir dessa maneira e isso chamou minha atenção. Também achei maravilhoso que ela é presidente de uma empresa de jogos de videogame, um mundo que, normalmente, é dominado pelo homens.

Assim, acredito que Isabelle fez uma excelente performance e é, sem dúvida, o melhor do filme. Além disso, acompanhamos sua história sem que os homens roubem a cena, algo que costuma acontecer quando o roteiro é escrito por um homem, mas, felizmente, não foi o caso. Acredito que ela é uma das mais cotadas a ganhar o prêmio, visto que ela já conquistou o Globo de Ouro 2017 pelo mesmo papel e seria uma ótima escolha da Academia.

2) Ruth Negga por Loving

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Filme escrito e dirigigo por Jeff Nichols.

Sinopse: Ruth Negga é Mildred, uma mulher afrodescendente, cujo amor por Richard, seu marido branco, acaba mudando leis que proibem casamentos interraciais nos Estados Unidos.

E O Oscar Vai Para…

Sim, admito que estou na torcida por Ruth Negga. A história do filme é baseada em fatos reais e, Mildred é uma protagonista extraordinária. Numa época em que o racismo era extremo e violento nos EUA, é lindo ver um casal como Mildred e Richard (Joel Edgerton) que usa o amor de um pelo outro como arma contra o preconceito cego da sociedade.

A personagem de Ruth é tímida, carismática e, apesar de ser frágil, se mostra mais poderosa e corajosa do que qualquer um que já conhecemos. É doloroso e sofrido assistir ao filme, no entanto, também é emocionante e cativante, pois o longa nos faz refletir até onde os preconceitos do nosso dia a dia pode nos levar e como estes são completamente massacrantes e desumanos.

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Mildred (Ruth Negga) e Richard (Joel Edgerton).

Me emocionei do começo ao fim com Mildred e achei a química dos atores maravilhosa. Adoro filmes que contam histórias verídicas, porque, normalmente, eles nos dão um show de ensinamentos e humanidade. Me arrepiei com todas as cenas da protagonista e, como esta, conseguiu ser firme com seus desejos e vontades, sem ceder ao ódio e preconceito dos outros.

Assim, ao meu ver, Ruth foi uma das maiores surpresas de 2016 e, com certeza, é minha favorita nessa disputa. Além de que, está mais do que na hora de uma atriz negra ganhar o Oscar de Melhor Atriz, já que nos últimos anos, somente mulheres brancas venceram. Tomara que 2017 faça jus a isso!

3) Emma Stone por La La Land

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Escrito e dirigido por Damien Chazelle.

Sinopse: Emma Stone interpreta Mia, uma aspirante a atriz que tenta equilibrar seu amor por um pianista de jazz com suas tentativas de encontrar seu próprio caminho para o sucesso.

Para quem acompanha a carreira da atriz deve ter se surpreendido bastante com a mudança e o desenvolvimento de seus personagens, esta que alavancou sua carreira como Olive em “A Mentira” (2010) e, agora, nos emociona do começo ao fim em La La Land.

Admito que o filme não me conquistou inicialmente e tampouco entendi o “medo” dos produtores em acharem que este filme não faria sucesso de bilheteria. No entanto, quando me deparei com a narrativa de uma sonhadora, assim como eu, buscando uma chance de mostrar seu talento, mudei de ideia e me apaixonei pela protagonista.

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Não é fácil!

Mia mora em Los Angeles e busca uma chance na carreira de atriz, mas, vive uma decepção atrás da outra. Senti todas as suas dores como se fossem minhas, tanto para conseguir uma chance na profissão, quanto para manter o amor de sua vida. Adorei o fato de que ela e suas amigas são próximas e se ajudam muito, pois, normalmente, Hollywood adora colocar mulheres como rivais, porém, fiquei triste que estas amizades pouco aparecem. Ainda achei o amor do casal sincero e real, inclusive com o desfecho que teve.

Mesmo sendo um musical que mantém o estilo clássico desse gênero, o roteiro consegue inovar e trazer uma protagonista encantadora e associável com qualquer pessoa que tem um grande sonho.

Assim, apesar de adorar os trabalhos da Emma e ter me encantado com o filme, questiono um pouco essa nomeação, mas, não ficarei decepcionada caso ela ganhe. Estou sempre na torcida, ainda mais por personagens tão parecidos comigo.

4) Natalie Portman por Jackie

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Filme escrito por Noah Oppenheim e dirigido por Pablo Larraín.

Sinopse: Como Jackie Kennedy, Natalie Portman retrata a primeira dama aflita e bastante reclusa com assuntos pessoais, que procura garantir o legado de seu falecido marido – e o seu próprio – após o assassinato deste.

Ao assistir 30 segundos de uma entrevista com a verdadeira Jackie Kennedy fiquei pasma com tamanha semelhança à Jackie da Natalie Portman. É impressionante como os trejeitos e o modo delicado de falar estão parecidos.

Sendo bem sincera, não fui fã do filme, pois a protagonista é silenciada o tempo todo e por mais que ela tente fazer uma homenagem ao marido assassinado, parece que todos querem se livrar dela, inclusive o diretor do filme. Esperei uma história mais cativante e emocionante, porém, fiquei a ver navios*.

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Jacqueline Kennedy e Natalie Portman.

Entretanto, Natalie está maravilhosa no papel, inclusive, até mesmo o jeito de rir está parecido com o de Jackie Kennedy. Apesar de achar que o roteirista e diretor pecaram feio na trama, em dar pouca margem ao desenvolvimento da história e da personagem, a atriz entrou por completo na vida de sua personagem e deu um show de interpretação.

Assim, acredito que Portman teve a melhor performance no filme, não sendo à toa sua nomeação. Não ficarei surpresa caso ela ganhe, porém, acredito que ela não esteja entre as favoritas deste ano.

5) Meryl Streep por Florence: Quem é essa mulher?

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Roteiro de Nicholas Martin e direção de Stephen Frears.

Sinopse: Meryl Streep interpreta Florence Foster Jenkins, uma herdeira rica cujo entusiasmo por cantar é tão nítido que – apesar de sua falta de talento – ela decide dar um concerto no Carnegie Hall.

Gente, vamos ser sinceros?

Todas as premiações cinematográficas deveriam ter a categoria Prêmio Meryl Streep. Convenhamos que essa mulher é maravilhosa e sempre surpreende, então, seria mais fácil ter um prêmio exclusivo pra ela, pois faria todo o sentido.

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Meryl Streep poderia interpretar o Batman e ser a melhor escolha. Ela é perfeição!
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Meryl concorda.

Quando ouvi falar do longa não dei muito atenção pra sinopse, mas, claro, como tinha Meryl, animei de assistir. A partir disso, mudei completamente minha visão sobre o projeto, pois me diverti muito com a trama e, principalmente, com Meryl, que dá um show de “horrores” ao cantar mal e desafinar, assim como a verdadeira Florence.

O filme é baseado numa fantástica história real, em que nos deparamos com a força de vontade de Florence, uma mulher apaixonada pela música. Mesmo sem ser apoiada pelas pessoas, com exceção do seu segundo marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), a protagonista está decidida a cantar profissionalmente e o faz, conquistando muitos fãs em New York.

É impossível ver o filme sem rir e chorar com Meryl no papel de Florence. A protagonista não canta bem, mas ela sonha tanto com isso, que você torce junto dela, para que ela realize seu maior sonho. Ademais, este longa só comprova que Meryl é um furacão! Ela pode interpretar uma máquinha de café quebrada e concorrer ao Oscar, porque ela provavelmente estará maravilhosa e não foi diferente com Florence.

Assim, acredito que a atriz não levará o prêmio, até porque, senhoras e senhores, ela não precisa, mas, a indicação fez muito sentido, visto que este personagem foge de tudo o que ela já interpretou e Meryl transborda talento (ou “falta” de talento) com a personagem.

BÔNUS DO DIA

Como eu não poderia deixar de entrar no “bolão 2017”, eis minhas previsões do OSCAR.

  1. Quem eu acho que irá ganhar: Isabelle Huppert ou Emma Stone.
  2. Quem eu gostaria que ganhasse: Ruth Negga.

E vocês, quais suas apostas no bolão do Oscar 2017 e para quem estão torcendo?

*Sinopse: no caso, todas as sinopses descritas seguem a linha narrativa da personagem principal.

*Fiquei a ver navios: é uma expressão popular da língua portuguesa que significa ser enganado, ludibriado, ver suas expectativas serem frustradas e ficar desiludido.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Elle. 2016.Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt3716530/&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

IMDB. Florence: Quem é essa mulher? 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4136084/?ref_=nv_sr_1&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

IMDB. Jackie. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt1619029/?ref_=fn_al_tt_1&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

IMDB. La La Land. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt3783958/?ref_=nv_sr_1&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

IMDB. Loving. 2016.Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4669986/?ref_=fn_al_tt_1&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

THE OSCARS. Best Actress Nominations 2017 Oscars. 2017. Disponível em: <http://oscar.go.com/news/nominations/best-actress-nominations-2017-oscars&gt;. Acesso em: 31 de jan. 2017.

Oscar 2017: os recordes como um passo para a Diversidade

Quem acompanha, anualmente, a premiação do Oscar deve-se lembrar de que, no ano passado, ocorreu uma grande revolta por parte de famosos e do público devido às indicações.

No ano de 2016, somente atores, atrizes e diretores brancos foram indicados nestas categorias, o que foi suficiente para mostrar a falta de diversidade fora e dentro das telas. Com isso, muitas pessoas do mercado audiovisual americano, assim como os fãs, utilizaram a hashtag #OscarSoWhite, como forma de protesto, além de que alguns famosos se recusaram a comparecer na premiação.

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Esses foram os artistas indicados nas categorias de Melhor Ator e Atriz e Melhor Ator e Atriz Coadjuvante em 2016.

Apesar das divergentes opiniões sobre o assunto, eu acredito que esse movimento foi de extrema importância para questionar a supremacia branca no maior prêmio cinematográfico de Hollywood.

Por meio dessa polêmica, a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas*Cheryl Boone Isaacs, primeira mulher negra a assumir o cargo, disse, ainda no ano de 2016, que “o conselho iria se comprometer a duplicar o número de mulheres e membros diversos da Academia até 2020”. Desde então, eles começaram a convidar novos membros, como por exemplo, a diretora brasileira Anna Muylaert.

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Cheryl Boone Isaacs, primeira mulher negra presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Com isso em mente, aproveitando que a lista dos indicados foi divulgada nessa semana, no dia 24/01, farei uma breve análise sobre os recordes deste ano, mas também mostrarei que ainda falta muito para alcançarmos a igualdade e diversidade necessária neste meio.

1) Pontos Positivos:

Em primeiro lugar, vamos falar da Diva Viola Davis, que teve sua terceira nomeação, como Melhor Atriz Coadjuvante, pelo filme Cercas (2016). A atriz já havia concorrido por Dúvida (2008) e Histórias Cruzadas (2011) e, assim, se tornou a primeira atriz negra a receber três indicações ao Oscar.

Além disso, é a primeira vez na história em que três atrizes negras concorrem na mesma categoria (Melhor Atriz Coadjuvante) no Oscar do mesmo ano. As indicadas são: Viola Davis (Cercas), Naomie Harris (Moonlight: Sobre a Luz do Luar) e Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo).

Em segundo, vem a indicação da maravilhosa Meryl Streep, que quebrou o seu próprio recorde, recebendo sua vigésima nomeação. Ela concorre como Melhor Atriz pelo filme Florence Foster Jenkins (2016) e, de quebra, fez um discurso lindo ao receber o prêmio Cecil B. DeMille* no Globo de Ouro 2017.

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Você é maravilhosa, Meryl!
Em terceiro lugar e, uma das mais lindas nomeações, foi a da montadora americana, Joi McMillon, na categoria de Melhor Edição, pelo filme Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), conquistando o posto de primeira mulher negra a concorrer como Melhor Editora. No site do mulhernocinema.com é possível saber um pouco mais sobre a carreira de Joi, no texto “Joi McMillon é a primeira mulher negra indicada ao Oscar de edição” e, como esta, mesmo com todas as dificuldades, conquistou seu espaço na sétima arte.

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Joi McMillon e Nat Sanders, também Editor do Filme.
Em quarto, temos a indicação de Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan, por Melhor Edição de Som, sendo o primeiro time indicado nesta categoria, composto só por mulheres. Elas concorrem pelo musical La La Land (2016).

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Cartaz do filme.
Ademais, ainda temos o recorde do ator Denzel Washington, que foi nomeado pela sétima vez, pelo filme Cercas (2016), também quebrando o seu próprio recorde de nomeações para um ator negro. Assim, contando todas os indicados na categoria de ator e atriz, protagonista e coadjuvante, essa é a primeira vez na história em que seis atores negros concorrem nestas categorias, no mesmo ano. Junto de Denzel, temos as atrizes, já citadas, Viola, Octavia e Naomie, além de Ruth Negga por Melhor Atriz (Loving) e Mahershala Ali por Melhor Ator Coadjuvante (Moonlight: Sobre a Luz do Luar).

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Ostavia Spencer, Ava Duvernay, Viola Davis, Naomie Harris, Ruth Neggas (Imagem retirada do Google Imagens).

2) Pontos Negativos:

Após mencionar esses recordes maravilhosos, está na hora de falarmos dos equívocos. Mesmo com esse pequeno passo a diversidade, não podemos deixar de notar que NENHUMA mulher foi nomeada como Melhor Diretora, sendo que já estamos na 89ª edição do Oscar e, no total, apenas quatro mulheres foram nomeadas nesta categoria ao longo de oitenta e nove anos, sendo Kathryn Bigelow a única vencedora, pelo filme Guerra ao Terror (2008).

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Kathryn Bigelow no Oscar 2010.
Além disso, entre os nomeados de melhor roteiro original e adaptado, apenas Allison Schroeder encabeça o time das mulheres, com o longa-metragem Estrelas Além do Tempo (2016). Se continuarmos, as únicas áreas em que mulheres costumam ser nomeadas são: Melhor Produção, Direção de Arte, Figurino e Maquiagem. No entanto, nas categorias  dos prêmios mais badalados, quase não existem mulheres concorrendo e, infelizmente, isso só corrobora o fato de que são poucas as que conseguem visibilidade e oportunidade nesse mercado de trabalho.

Como questiona Mary McNamara no texto “Oscar não tão branco, mas ainda muito masculino” no site do Los Angeles Times: Is it time for #OscarsSoMale? (Estaria na hora de um #OscarMuitoMasculino?).

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Alisson Schroeder, co-roteirista de Estrelas Além do Tempo, única mulher nomeada na categoria de Melhor Roteiro Adaptado.
Por fim, não posso deixar de mencionar a pior indicação deste ano. Casey Affleck, irmão de Ben Affleck, foi nomeado pelo filme Manchester a Beira Mar (2016), inclusive ganhou o Globo de Ouro 2017 por este trabalho, mesmo sendo acusado de assédio, por mais de uma mulher que trabalhou com ele no set de filmagem.

Por quê precisamos falar sobre isso?

Infelizmente, muitas pessoas reproduzem a ideia de que não devemos associar a carreira do ator com sua vida pessoal, mas, particularmente, eu acho isso um erro. No momento em que homens como Casey Affleck, Jonnhy Depp e Bernardo Bertolluci, por exemplo, são acusados de assédio, violência doméstica e estupro, respectivamente, e não são punidos, pelo contrário, são premiados e glorificados pelo talento e geniliadade, dá a entender que homens como eles estão acima da lei e podem fazer o que bem quiserem, com quem quiserem.

A atriz Constance Wu, que interpreta Jessica Huang na série Fresh Off the Boat, foi uma das famosas que mencionou o caso em público, dizendo “Eu fui aconselhada a não falar sobre isso em público para preservar minha carreira. Sendo assim, dane-se minha carreira, pois eu sou mulher e humana em primeiro lugar.”(Tradução Livre).

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Sim Constance, você está certíssima em falar do assunto em público.
Ela continua no Twitter “Homens que assediam sexualmente as mulheres para o OSCAR! Porque boas performances valem mais do que humanidade, do que a integridade humana!” e “Meninos! Resolvam seus problemas fora dos tribunais! É só ser um bom ator, isso é tudo que importa! Porque arte não é sobre humanidade, certo?”

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Tweets da atriz Constance Wu.
Essa fala é importante, ainda mais vindo de alguém com visibilidade, pois nos faz questionar o porquê nossa sociedade protege esses artistas, quando, na verdade, ela devia denunciar e puni-los por seus crimes. Inclusive, como o BuzzFeed americano mostrou no post “As pessoas estão agradecendo Constance Wu por falar em público contra a nomeação ao Oscar de Casey Affleck”muitas pessoas parabenizaram a atriz e a apoiaram na causa, mostrando que o público não vai mais aceitar que esses casos passem impunes.

Para uma melhor reflexão sobre o assunto, eu recomendo o texto da Rebeca Puig “POR QUE É TÃO FÁCIL PERDOAR O GÊNIO MASCULINO MESMO QUANDO ELE É UM CRIMINOSO CONDENADO?”, do site collantsemdecote.com.br, que fala muito bem sobre a razão pela qual não devemos velar os crimes destes homens: Eu sei que esse é um assunto polêmico, mas se a gente não discute esse tipo de assunto então continuamos para sempre nessa repetição de padrão. Chega de passar a mão na cabeça, chega de panos quentes e chega de tapinhas nas costas. Chega de escolher o lado do agressor.”

Sendo assim, apesar das conquistas no Oscar 2017, ainda são necessárias muitas mudanças para que a diversidade seja algo comum na maior indústria cinematográfica que existe. Enquanto isso, torcemos por Violas, Meryls, Kathryns e McMillons e aguardamos mais e mais representatividade, dentro e fora das telas.

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Cartaz do filme Estrelas Além do Tempo, obra que prova o quão importante é a diversidade e representatividade, já que aprendemos quem são “As mulheres que ninguém conhece, por trás da missão que todos conhecem”.
*Academia de Artes e Ciências Cinematográficas: nome oficial do Oscar, que é o mais importante e prestigiado prêmio do cinema mundial.

*Cecil B. DeMille: é um prêmio dado anualmente pela Hollywood Foreign Press Association, na cerimônia do Globo de Ouro, para todos aqueles com contribuições relevantes para o mundo do entretenimento.

BIBLIOGRAFIA:

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