Porque é importante debater o caso Aziz Ansari?

Esses dias alguém me perguntou qual era a minha opinião sobre o caso do ator, comediante e criador da premiada série Master of None (Netflix), Aziz Ansari.

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Aziz Ansari.

Resumidamente, há alguns dias, o site Babe postou um relato anônimo, em que uma garota de 23 anos disse ter conhecido Aziz numa festa após o Emmy Awards*, onde eles trocaram telefone e tempos depois tiveram um encontro em New York.

No dia do encontro, eles jantaram e o ator a convidou para o seu apartamento. Ela aceitou e, chegando lá, ele acelerou as coisas e a deixou numa situação desconfortável. Eis uma parte do relato:

“Meu desconforto estava explícito, eu me afastava e contestava. Sei que minha mão parou de mexer, eu congelei (…) Eu acredito que Aziz tenha tirado vantagem de mim. Eu não fui ouvida e fui ignorada. Foi de longe a pior experiência que eu já tive com um homem”.

Antes de mais nada, quero dizer que me considero feminista, mas a cada dia aprendo mais e mais. Obviamente, se aprendo é porque eu questiono as coisas, ouço relatos, converso, debato e leio, leio muito. Estou dizendo isso para que saibam que eu não sou especialista em nada, eu só gostaria de abrir um debate sobre esse assunto e expor minha opinião também.

Minha visão da situação é a seguinte: Pelo relato da moça, no lugar dela eu estaria desconfortável também e talvez não soubesse verbalizar um Não. A maioria das pessoas está dizendo “Porque ela não disse não?” Porque ela não foi embora?”, inclusive saiu uma reportagem no New York Times com um péssimo título “Aziz é culpado sim. De não ler mentes”, onde a autora claramente desqualifica o relato da moça.

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Nada legal.

Eu não acho que o Aziz seja um cara ruim e essa situação está longe de compará-lo com casos piores que estão circulando Hollywood, no entanto, acho que existem níveis diferentes de abuso e a base de tudo começa justamente com o cara legal.

As pessoas tem a mania de achar que homens que cometem estupro, assédio e abusos são monstros, mas, na verdade, eles são homens normais criados dentro de uma sociedade machista. Nossa sociedade é absurdamente machista e ninguém escapa disso, porém, por sorte, muitos começam a refletir, especialmente as mulheres, e entendem o quão ruim é essa cultura machista, misógina e opressora.

Sinceramente, o caso do Aziz foi leve comparado com outros casos vindo à tona na imprensa, mas não foi nenhum pouco legal. No relato, a  jovem diz que falou mais de uma vez que não queria transar e ele insistiu mesmo assim. Então eu já me pergunto, onde foi que ela não verbalizou? Se a pessoa diz que não quer transar, ela NÃO quer transar e ponto. Porque insistir?

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Deusa Michelle me representa, “PORQUE?”

Eu vi algumas pessoas falando nas redes sociais “Mas ela aceitou ir pro apartamento dele para fazer o quê, brincar de adoleta?”. Gente, quer dizer que se a mulher aceita ir no apartamento do cara, obrigatoriamente ela tem que transar com esse cara? Talvez ela estivesse afim de transar, mas quando chegou lá ela mudou de ideia. Entretanto, pela lógica de alguns, se ela topou ir para o apartamento dele, ela teria que transar porque já era tarde demais para mudar de ideia.

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Print com alguns comentários no facebook.

AMIGOS(AS), apenas parem com essa mentalidade! Ela tem todo o direito de mudar de ideia e ponto final. Inclusive, ela tem o direito de aceitar o convite para ir no apartamento de um homem e não ter segundas intenções, pois nem tudo é sexo. Pelo relato dela, ela parecia realmente interessada em conhecê-lo melhor. Já ele, parecia querer sexo, mas se um não quer, NINGUÉM FAZ E PONTO FINAL.

Acho que tem muita gente revoltada achando que esse caso diminui as acusações de outras mulheres sobre casos de assédio, outras estão achando que agora as mulheres querem reclamar de tudo, quando, na verdade, o Aziz é considerado um cara legal, se diz feminista e apoia a causa das mulheres, mas vacilou feio. Se mulheres em situações parecidas com essa não expressarem seus sentimentos agora, caras legais como o Aziz provavelmente vão continuar agindo assim, até correr o risco de fazerem coisas piores.

Não estou dizendo que ele irá fazer algo pior e tampouco acusando ele disso ou daquilo, mas eu sou sempre a favor das mulheres falarem abertamente sobre seu desconforto, mesmo que o caso tenha uma gravidade menor que outros, para a gente possa debater e entender o ponto principal: A cultura machista está impregnada na nossa sociedade e ela afeta a todos nós, especialmente as mulheres. Enquanto uma mulher passar por situações em que ela não consiga expressar sua voz, é mais do que necessário o debate e a reflexão para a gente entenda onde está o problema e tentar consertá-lo da melhor maneira possível.

Ou seja, é importante parar de diminuir a dor ou desconforto de outra mulher. Mesmo que na situação dela você agisse diferente, lembre-se que não é toda mulher que consegue se impor. Nossa cultura sempre ensinou e ainda ensina as mulheres a se preocuparem mais com o bem estar alheio do que com o dela próprio.

Se uma mulher faz um relato desse e todo mundo silencia ela, tentando ensiná-la o que ela deveria fazer e ninguém tenta debater com o homem da situação, sobre o que ele deveria ter feito, a gente continua cometendo o mesmo erro “Culpar as mulheres!”

Vamos elevar a gravidade dessa história e olha onde podemos chegar:

“Mas porque ela estava com uma roupa tão curta?”, “Porque ela não gritou?”, “Porque ela saiu sozinha tão tarde da noite?”.

Você não acha que tem algo parecido nessas situações?

O assunto e a história são mais suaves que outros, mas é a voz de uma mulher desconfortável e ninguém pareceu preocupado em dialogar com o Aziz e dizer o que ele poderia ter feito nessa situação, como ter perguntado – “Poxa, porque você está desconfortável?, “Você quer que eu pare por aqui?”, “O que eu posso fazer para te deixar mais confortável?”. Essas são algumas poucas perguntas que ele poderia ter feito no momento e que talvez ajudasse a situação.

Por fim, gostaria de dizer que estou aberta ao debate e eu quis expor minha opinião, pois sei que muitas mulheres já viveram situações parecidas e não entenderam o porquê do desconforto, achando que foi apenas um encontro ruim, enquanto eu acredito que há um problema maior por trás disso. Talvez sim, tenha sido um encontro ruim, mas talvez e muito provável tenha a ver com nossa cultura machista e opressora.

Notas finais

Sobre o Aziz, acho que foi algo positivo ele não ter negado a história e ter relatado a visão dele, pois demonstra interesse da parte dele em mudar ou se redimir. Mas isso pode ser só impressão minha. Segue o depoimento do artista:

“Em setembro do ano passado, eu conheci uma mulher em uma festa. Nós trocamos telefones. Nós enviamos mensagens e eventualmente saímos em um encontro. Nós saímos para jantar e depois nos envolvemos em atividade sexual, que por todas as indicações eram completamente consensuais. 

No dia seguinte eu recebi uma mensagem dela dizendo que ‘apesar de ter parecido ok’, após ter refletido ela se sentiu desconfortável. É verdade que tudo pareceu ok para mim, então quando eu soube que não era o mesmo para ela eu fiquei surpreso e preocupado. Eu ouvi suas palavras e respondi privadamente depois de ter tido o tempo para processar o que ela disse.

Eu continuo apoiando o movimento que está acontecendo em nossa cultura. É necessário e há muito tempo atrasado”. 

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Print do depoimento original.

Sobre a jornalista do New York Times que escreveu que o Aziz deveria ler mentes, acho que fica a reflexão: Num mundo onde as vozes das mulheres pouco são ouvidas, será que vamos ter que ensinar os homens a lerem mentes?

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Vai saber…

*Emmys Awards:  o maior e mais prestigiado prêmio atribuído a programas e profissionais de televisão.

BIBLIOGRAFIA

BABE. I went on a date with Aziz Ansari. It turned into the worst night of my life. 2018. Disponível em: https://babe.net/2018/01/13/aziz-ansari-28355. Acesso em: 17 de jan. 2018.

EL PAÍS. “Por que ela não foi embora?”: a acusação contra Aziz Ansari abre um debate que nos atinge bem de perto.” 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/15/cultura/1516034198_916720.html. Acesso em: 17 de jan. 2018.

OMELETE. Aziz Ansari é acusado de abuso sexual e responde alegações. 2018. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/aziz-ansari-e-acusado-de-abuso-sexual-e-responde-alegacoes/. Acesso em: 17 de jan. 2018.

 

Após ataque em Las Vegas, guitarrista muda de opinião sobre a segunda emenda

Um atirador, identificado como Stephen Paddock, de 64 anos, abriu fogo contra milhares de pessoas que curtiam o festival de música country Route 91 em Las Vegas, nos Estados Unidos, na madrugada desta segunda-feira (2), deixando 58 mortos e mais de 500 feridos, segundo a polícia.

Esse fato por si só já foi o bastante para ser um choque em todo o mundo. Conforme foram surgindo informações sobre o autor dos disparos, mais dúvidas sobre a motivação do massacre apareceram. O Estado Islâmico reivindicou a sua autoria, mas não apenas a família do suspeito, já encontrado morto pelos policiais em um quarto do 32º andar do cassino Mandalay Bay, afirmou desconhecer qualquer afiliação religiosa da parte dele, como também o FBI negou uma conexão entre ele e o grupo terrorista. No cômodo de Stephen, havia mais de dez armas. Com isso, ainda não há um motivo concreto que ajude a elucidar as razões que levaram o aposentado a cometer tal atrocidade.

Em decorrência deste que foi o ataque armado com maior número de vítimas nos Estados Unidos, o guitarrista do conjunto Josh Abbott Band mudou sua opinião a respeito da segunda emenda à constituição americana. Caleb Keeter escreveu em seu perfil do Twitter que defendeu o direito ao porte de armas durante toda sua vida – até este momento. “Eu não consigo expressar o quanto estava errado”, disse o músico.

 

Keeter contou que integrantes da equipe técnica da banda possuem licenças para possuirem armas, inclusive algumas delas estavam no ônibus deles. “Elas foram inúteis”, registrou o guitarrista na rede social. A conclusão a que ele chegou é a necessidade de um controle de armas nos Estados Unidos com urgência.

O músico explicou em sua publicação que ninguém da equipe técnica podia acessar suas armas para não confundir os agentes, que poderiam pensar que fizessem parte do ataque e os atingissem por medida preventiva. “Meu maior arrependimento é, teimosamente, não ter percebido isso até eu e meus irmãos de estrada sermos ameaçados”, confessou.

“Escrever adeus aos meus pais e ao amor da minha vida ontem à noite e meu testamento vital porque senti que não sobreviveria no decorrer da noite foi o suficiente para eu perceber que isso está completa e totalmente fora de controle. Esses disparos foram poderosos o bastante para que os caras da minha equipe técnica, estando próximos a uma vítima baleada por este covarde da porra, ficassem com ferimentos por estilhaços”, frisou Keeter.

Considero como nobre a reação do guitarrista ao reconhecer seu erro e admitir, publicamente, que mudou de lado sobre as vendas de armas nos Estados Unidos, que é um sério problema, apontado por muitos já há algum tempo. A tragédia de Las Vegas marcou a história americana, mas ao menos serviu para abrir os olhos para uma possível mudança. Não vejo, contudo, essa possibilidade acontecendo ainda durante o mandato do presidente Donald Trump, mas vejo a retomada do debate como algo minimamente positivo a partir de uma barbárie tão devastadora. Minhas orações estão com as vítimas e suas famílias.

Em outro post, vale destacar, o músico salientou que “não viverá com medo de ninguém”. E assim todos devemos seguir, independentemente de onde ocorreu o massacre. A dor humana é compartilhada entre todos que sentem empatia.

Women’s March: a marcha das mulheres e o que está por trás do evento.

O dia 16 de janeiro de 2017 foi considerado o dia mais triste do ano, chamado de “Blue Monday”, segundo o estudo de Cliff Arnall, psicólogo da Universidade de Cardiff, no País de Gales. No entanto, ao meu ver, o dia mais triste do ano é hoje.

Hoje, infelizmente, nós perdemos e muito. No dia 20 de janeiro de 2017, Donal Trump assume a presidência dos Estados Unidos e é doído escrever sobre isso. Hoje, nos despedimos da maravilhosa família Obama e entramos numa era assustadora, com Trump, Temer, Brexit*, tristeza e tristeza.

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“A Esperança é necessária.” Já estamos com saudades, Michelle!

Como não sou jornalista e não entendo tanto de política, eu vou mudar o foco do texto e falar sobre a luta feminista e, mais especificamente, o Women’s March (Marcha das Mulheres), que irá ocorrer amanhã, dia 21 de janeiro de 2017.

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“Marcha das Mulheres em Washington, 21 de janeiro de 2017, às 10hrs”

No dia após a posse do novo presidente, mulheres irão marchar, para que suas vozes não mais sejam silenciadas. A ideia surgiu depois que os resultados das eleições presidenciais saíram, nos EUA, tendo como ponto de partida, a cidade de Washington e, agora, são mais de 600 cidades. No site do womensmarch, é possível ler sobre a missão e visão do projeto:

“Estamos juntos em solidariedade com nossos parceiros e crianças para a proteção de nossos direitos, nossa segurança, nossa saúde e nossas famílias – reconhecendo que nossas comunidades vibrantes e diversas são a força do nosso país.”(Tradução livre)

E por quê essa caminhada é tão importante para a sociedade?

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“Quando os poderosos usam sua posição para praticar bullying nos outros, todos nós perdemos.”

Aproveitando a fala da querida Meryl Streep, no Globo de Ouro 2017, vale a reflexão de que está mais do que na hora de discutirmos o quão assustador e retrógrado será, para todos nós, um homem como o Trump assumir a presidência de uma das maiores potências econômicas atuais, destilando ódio e preconceito em todas as suas falas.

Eu não vou fazer esse texto criticando ele, porque senão eu escreveria um livro de 500 páginas só pro primeiro capítulo, mas, sim, usarei as palavras das líderes da Marcha, para mostrar o quão importante esse evento será.

“A Marcha das Mulheres em Washington enviará uma mensagem ousada ao nosso novo governo em seu primeiro dia no comando e para o mundo, de que os direitos das mulheres são direitos humanos. Estamos juntos, reconhecendo que defender os mais marginalizados entre nós é defender a todos nós.”(Tradução Livre)

Como o grupo deixa bem claro no site, essa luta não é só contra o machismo e misoginia, é contra todo e qualquer tipo de preconceito. É a favor de todas as minorias, que, por sinal, são os grupos de maior ataque do atual presidente.

Segue o link da página do Facebook, Women’s March on Washington, com um vídeo (em inglês) explicando sobre o evento.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fwomensmarchonwash%2Fvideos%2F1401849963161612%2F&show_text=1&width=560

Como a Paula Cosme Pinto diz muito bem, no texto A Marcha das Mulheres também é sobre os homens” no site Expresso: Se a forma misógina, desrespeitosa e totalmente discriminatória como se refere ao sexo feminino (mais de metade da população mundial) não era suficiente para irmos todos para a rua, então que pensemos também nos comentários racistas, xenófobos, homofóbicos e totalmente desproporcionados no que toca a diabolizar minorias ou populações mais excluídas. Na forma como constantemente desrespeitou e pôs em causa as regras mais básicas do direitos civis e humanos, no seu país e nos demais.”

Também no site Nexo, podemos ler que: “Em entrevista ao jornal “The New York Times”, Breanne Butler, uma das organizadoras da marcha, disse que a manifestação é uma afirmação política, uma demonstração de “boas vindas” por parte de grupos marginalizados e atacados por Trump durante a campanha presidencial, que agora tentam mostrar estar atentos a suas ações. Por isso, direitos de imigrantes e de minorias em geral também estão em pauta, além das questões de gênero.”

Ou seja, essa marcha põe em pauta todas as questões que homens brancos, como Donald Trump, insistem em pisotear e debochar, cegos com todo o seu privilégio.

Os 5 princípios do Women’s March, retirado do site original, com tradução livre, são:

  1. A não-violência é um modo de vida para pessoas corajosas.
  2. A amada Comunidade é o quadro para o futuro.
  3. Ataque as forças do mal, não as pessoas que fazem o mal.
  4. Aceitar o sofrimento, sem retaliação, pelo bem da causa, para alcançarmos nosso objetivo.
  5. Evitar a violência interna do espírito, assim como a violência física externa.

Ainda de acordo com o site, para as brasileiras e brasileiros interessados na causa, haverá uma marcha na cidade do Rio de Janeiro, em Ipanema – Praça Nossa Senhora da Paz, dia 21 de janeiro às 13hr. Segue o evento no facebook. Para os que não poderão ir, espalhe a notícia ou use a hashtag #WhyIMarch e mostre sua força e resistência, mesmo que através da internet. Estamos juntos nessa!

Sendo assim, em tempos em que levamos golpes cruéis, como no Brasil ou pela ascensão dos republicanos no EUA, não por Trump ser o mais votado, visto que Hillary Clinton teve 2,9 milhões de votos à mais, mas pelo sistema antiquado que silencia a democracia, devemos mais do que nunca, nos juntar nessa causa e usarmos nossa força maior: a fala.

Não ao ódio, ao preconceito, ao racismo. Chega de homofobia, machismo e xenofobia. Chega, Chega, CHEGA!

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“Mulheres do mundo unidas.”

BÔNUS DO DIA

Para quem tem interesse em ler e entender um pouco mais sobre a luta feminista, segue o link do texto em que falo sobre o documentário “She is Beautiful When She is Angry”.

*Brexit: é a abreviação das palavras em inglês Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). Designa a saída do Reino Unido da União Europeia.

BIBLIOGRAFIA:

DN.Resultado final: Hillary teve mais quase 2,9 milhões de votos que Trump. 2016. Disponível em: <http://www.dn.pt/mundo/interior/resultado-final-hillary-teve-mais-quase-29-milhoes-de-votos-que-trump-5567750.html&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

DE LIMA, Juliana Domingues. As mulheres que marcharam em Washington em 1913. E as que prometem marchar em 2017. 2017. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/01/17/As-mulheres-que-marcharam-em-Washington-em-1913.-E-as-que-prometem-marchar-em-2017?utm_campaign=a_nexo_2017117_-_duplicado&utm_medium=email&utm_source=RD+Station&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

PINTO, Cosme Paula. A Marcha das Mulheres também é sobre os homens. 2017. Disponível em: <http://expresso.sapo.pt/blogues/bloguet_lifestyle/Avidadesaltosaltos/2017-01-20-A-Marcha-das-Mulheres-tambem-e-sobre-os-homens&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

UOL NOTÍCIAS. Hoje é ‘Blue Monday’,o dia mais triste do ano, mostra estudo. 2017. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2017/01/16/hoje-e-blue-mondayo-dia-mais-triste-do-ano-mostra-estudo.htm&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

WOMEN’S MARCH. 2017. Disponível em: <https://www.womensmarch.com/mission/&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

Conspiração e Poder | Um filme sobre jornalismo e a busca pela verdade

Procurei o que assistir na Netflix na noite desta terça-feira sem muita convicção de que algo iria despertar minha atenção. Mas quando vi “Conspiração e Poder” na lista dos adicionados recentemente, me senti atraída para clicar e saber mais. E o que me fez assistir não foi a capa, o título, ou a presença da Cate Blanchett no elenco, tampouco o fato de ser um filme baseado em fatos reais. Eu decidi assistir por ser um filme sobre jornalistas que cometeram um erro que lhes custou o emprego e a reputação, contado sob o ponto de vista da produtora do extinto programa jornalístico. Até hoje, ela defende a veracidade da matéria.

Em setembro de 2004, o programa 60 Minutes 2, da CBS, veiculou uma reportagem que apontava privilégios que George W. Bush teria tido durante seu serviço militar na Guarda Nacional do Texas em 1973. No entanto, pouco tempo depois da divulgação, diversas críticas à matéria apareceram e rapidamente se espalharam pela internet. Blogs conservadores apontavam de que forma os documentos mostrados pelo 60 Minutes 2 poderiam ser facilmente forjados no Microsoft Word.

Como a equipe de jornalistas envolvidos na apuração detinha apenas cópias dos documentos que provariam os supostos privilégios de Bush, eles não puderam comprovar a veracidade dos papéis. Para preservar a imagem da empresa, o respeitado âncora, Dan Rather (Robert Redford), precisou pedir desculpas pelo erro enquanto apresentava o programa. (Ainda que a equipe tenha insistido na história relatada após as primeiras críticas).

Por fim, ocorreu uma investigação interna pela emissora, e a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) foi demitida, assim como os demais integrantes, com excessão de Dan Rather que, pouco depois, contudo, pediu demissão.

É evidente perceber a semelhança entre essa história e a segunda temporada da série The Newsroom, produzida pela HBO.

Assim como MacKenzie, a produtora da ficção, Mapes tem o compromisso com a verdade correndo em suas veias. No entanto, a sede por reportar o que a população precisa saber (e isso vale para ambas) atropelou a apuração e a posterior checagem dos fatos apurados.

A questão que deteriorou a reportagem foi a falta de provas. Por mais que todas as peças se encaixassem, por mais que faça sentido Bush ter recebido tratamento diferenciado enquanto servia ao exército porque vinha de uma família abastada e importante no Texas, os jornalistas precisavam da certeza, em 100%.

A pressa contribuiu para essa falha. Não havia muitas datas disponíveis para exibir a reportagem e a escolhida deixou a equipe com apenas uma semana para concluir toda a investigação.

Eles estavam tão envolvidos na apuração que enxergaram apenas o que era o bastante para veicular as informações. No entanto, deixaram os riscos debaixo do tapete.

Um jornalista deve duvidar sempre, inclusive de si próprio. Seja nessa história real, quanto em The Newsroom, os jornalistas confiaram na história e fecharam os olhos para a possibilidade de estarem errados.

Os jornalistas, na série, têm a “missão de civilizar”, por meio do telejornal. Diferentemente da concorrência, eles querem resgatar o que o jornalismo tem de bom. E isso inclui o compromisso com a verdade, com a população e com a necessidade de informar o que é de interesse público. A série cita Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), em diversos momentos. Assim como o personagem da clássica história, os personagens de The Newsroom acreditam que precisam espalhar a verdade a que eles têm acesso para os demais, desprovidos das informações deixadas de lado pelo restante da mídia pelo fato de elas não serem rentáveis à empresa. Por isso, há constantes conflitos da redação com o departamento de marketing. Aliás, essa conturbada relação também aparece em alguns momentos do filme Conspiração e Poder.

Vale dizer, contudo, que a verdade mesmo jamais conheceremos. Sem provas, não há como dizer que Bush recebeu tratamento diferenciado no exército. Isso pode ser um fato ou pode ser algo criado por documentos forjados que acabaram gerando essa dúvida.

Vale salientar que toda essa situação ocorreu em período eleitoral. O pai de Mapes a chamou de liberal, em entrevistas à imprensa na época do escândalo, e disse que ela era feminista radical (como se isso fosse algum tipo de ofensa). Mapes não falava com o pai havia anos. O filme deixa claro que havia muita mágoa na relação que ela tinha com o pai. Quando criança, Mapes sofria com o pai alcóolatra e violento, mas nunca pedia para ele parar. Porque ela queria passar a imagem de que era forte. Mas ao ver o que ele estava falando dela para os jornalistas, Mapes pediu que parasse. E essa cena é muito impactante. Na verdade, é, para mim, a mais intensa de todo o filme.

Com essa ausência do pai em sua vida, é lindo ver a relação que ela desenvolve com o âncora do jornal.  É só amor ali, um pelo outro, e de ambos pelo jornalismo.

E é esse amor que conecta todos os personagens.

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Em um dos episódios de Supergirl (calma, eu não fugi do tema!), Alex, a irmã da heroína, questiona seu chefe do porquê ela ter conquistado sua vaga na instituição que investiga alienígenas inimigos e pergunta se foi por causa do seu parentesco com a Kara que ela foi aceita. A resposta é afirmativa, mas ele ressalta que aquele era só o motivo de ela ter entrado na companhia, não a razão por ali ter permanecido. Quanto a isso, ele completa dizendo que o desempenho dela, e unicamente dela, é o que justifica as suas conquistas.

Nossas escolhas profissionais são semelhantes a este caso. Assim, percebi que, depois de um tempo, não importa por que escolhemos o Jornalismo. O que importa é por que permanecemos nele. E ele em nós.

A segunda temporada de The Newsroom subiu muito no meu conceito devido à semelhança que ela apresenta ao caso real do 60 Minutes 2. Antes, não gostava tanto por achar que fugia da realidade. Mas a arte às vezes também imita a vida. Esta série pode não ter seu roteiro baseado em fatos reais, mas tem muitos aspectos da realidade ali contida. Sem contar as maravilhosas cenas em que vemos os bastidores da produção de notícias. ❤

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Bastidores ❤

E quer ver uma arte mais bonita do que a própria representação do real? Por isso amamos o jornalismo. Somos Dom Quixotes.

O jornalismo machista nas matérias de esporte

Por um jornalismo mais humano e feminista

Que a imprensa não dá a menor relevância para as notícias de esporte feminino, isso nós já sabemos. No entanto, uma manchete do jornal Manaus Hoje desta segunda-feira, 12 de dezembro, viralizou nas redes sociais diante do quão absurda foi.

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A manchete “Meninas dão de quatro” do jornal Manaus Hoje recebeu duras críticas por ter escrachado algo que já sabemos que existe, mas que às vezes não fica tão evidente: o jornalismo machista nas matérias de esporte.
A matéria em questão dizia respeito à vitória da seleção feminina de futebol contra a Rússia. Com este resultado, o Brasil conquistou uma vaga antecipada para a final em Manaus.

Mas, você provavelmente está se perguntando: “como um título desses foi aprovado?”, ou então: “como alguém até mesmo pensou em publicar isso?”

Esse tipo de atrocidade acontece porque alguns jornalistas ainda não enxergaram a linha que separa o que é genuinamente engraçado do que é desrespeitoso, que, aliás, ultrapassa muitas vezes o machismo aqui comentado e criticado.

O jornalismo trabalha com humor e não raro apropria-se de chavões para atrair a atenção dos leitores e conquistar audiência. Até aí, beleza. No entanto, quando o humor pertence aquele discurso de quem diz “o mundo está ficando muito chato, não se pode nem mais fazer uma brincadeira”, aí entra o problema.

Como ainda bem que o mundo está ficando um lugar muito chato para os machistas de forma geral reproduzirem seus discursos, o jornal recebeu, de forma muito merecida, uma enxurrada de críticas.

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Este é um conselho muito bom. E digo isso para jornalistas de todos os veículos de comunicação.
Com isso, como já era de se esperar, o jornal Manaus Hoje pediu desculpas na edição desta terça-feira, 13, oferecendo, inclusive, o mesmo espaço da ridícula matéria.

Mesmo que essa atitude tenha sido a esperada e, portanto, não é nem um pouco surpreendente que tenham feito o mínimo de assumir o erro e pedir desculpas, queria levantar alguns pontos aqui que me chamaram a atenção nessa retratação deles.

O pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje foi publicado na edição da terça-feira, 13 de dezembro, um dia depois de terem cometido um ˜deslize˜ na manchete, atrelando uma piada de cunho sexual ao resultado de um jogo de futebol feminino.
Eles usaram o espaço que tinham para pedir desculpas para dizer algo como: “poxa, gente, vocês ficaram chateadas? Pedimos desculpa, de verdade. Mas, olha só, nós fizemos uma ~homenagem linda e fofa~ pra vocês no Dia das Mulheres. Nós gostamos tanto dela que vamos botar aqui de novo, ó”.

Antes de mais nada, não gostei desse tom usado na edição de 8 de março. Achei que foi mais um exemplo que romantiza uma data que deve ser lembrada pela luta por direitos; e não para dizer “ah, mulheres, vocês são lindas, mas se deem ao respeito. Vocês são lindas, mas não andem à noite na rua. Vocês são lindas, mas se forem abusadas é porque estavam querendo, né? Parabéns!”.

Uma capa ˜bonitinha˜ no Dia das Mulheres não compensa erro grotesco algum. Não sei por que eles relacionaram o fato de terem sido o único jornal num raio de x km que homenagearam as mulheres por seu dia. Gente, e se os outros jornais estivessem mais preocupados em fazer um bom jornalismo? Desconheço a concorrência deles e nem estou defendendo eles, mas, acho que me fiz clara quanto a este ponto.

Agora, vamos combinar: essa forma de comunicar está toda errada. Nós estudamos quatro anos na faculdade, nos preocupamos com questões sociais e aí vemos esse tipo de erro de sensacionalismo barato sendo ainda publicado. Não nos resta a ter outra sensação além de: gente, até quando? Como podemos tornar o jornalismo menos machista?

Nessas horas ressoa na minha mente o discurso da Emma Watson na ONU em que ela diz: “Se não agora, quando?”.

Busquei dados para embasar este fato de que o jornalismo é machista, sim. Confira:

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra discrepância entre cobertura relacionada às mulheres e aos homens durante a Rio 2016

Uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge durante as Olimpíadas Rio 2016, comprovou que há uma diferença semântica na cobertura de notícias sobre atletas mulheres e atletas homens. Por exemplo, “o vocabulário nas notícias sobre atletas mulheres tiveram um enfoque desproporcional voltado para a aparência, roupas e vida pessoal, colocando em evidência a estética em detrimento do atletismo”, informa.

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Matérias sobre atletas mulheres costumam adotar um vocabulário mais voltado à aparência, roupas e vida pessoal. A estética supera o atletismo.
Apesar de a pesquisa ter usado uma amostra de notícias em inglês, achei que seria interessante buscar exemplos de mídia nacional para ajudar a explicar o que o item apresentado acima quis dizer.

No exemplo que coloquei aqui, de uma matéria no site da revista Veja, encontramos alguns dos elementos que a pesquisa descobriu que são mais relacionados às notícias sobre atletas mulheres. A matéria em questão aqui foi muito bem escrita e não estou desmerecendo a repórter que a escreveu. Mas, acho válido refletir sobre o uso do adjetivo “doce” no título. Será que se fosse um resultado de jogo masculino essa palavra teria sido empregada? Será que uma matéria iria destacar, no primeiro parágrafo, um presente dado ao atleta homem?

Diferentemente de trabalhar o vocabulário mais voltado às mulheres, sem desrespeitá-las, é usar o seu poder como formador de opinião na área de jornalismo esportivo para falar besteiras.

 

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Muitos seguidores já avisaram para o colega aqui que algo de errado não está certo em sua fala e postura, mas não adiantou. A crítica ao seu machismo entranhado entrou por um ouvido e saiu por outro sem fazer efeito algum em sua consciência.
Ainda sobre a pesquisa da Universidade de Cambridge, matérias sobre esportes feminimos adotam níveis mais altos de infantilização para as atletas. O que estava escrito mesmo no pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje? Ah, isso mesmo. “Meninas, nos perdoem”. O mesmo, contudo, não ocorre com homens sendo chamados de “meninos”.

Com relação aos termos mais empregados quando as notícias são sobre as atletas mulheres, se destacam: mais velhas, grávidas, casadas ou solteiras. Já as principais palavras relacionadas aos homens são: mais rápidos, fortes, autênticos e ótimos.

Sobre a forma de retratar o desempenho na competição, a pesquisa mostrou que aos atletas homens são atrelados verbos como: bater, vencer e dominar; enquanto às mulheres: competir, participar e lutar.

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Quando uma atleta mulher se destaca, ela é comparada a um atleta homem de destaque, para que a gente perceba que elas são boas mesmo.
O erro mostrado na imagem acima é um dos mais graves, porque ele mostra que há um hábito de comparar uma atleta mulher que tem um desempenho de destaque perante sua categoria ou no seu time, com um atleta homem renomado. É como se, fazendo isso, a mídia projetasse uma analogia proporcional do tipo: ah, Pelé é uma lenda no futebol brasileiro, então se estão comparando a Marta com ele, é porque a Marta foge da regra das outras atletas mulheres.

Essa matéria do Milton Neves, como um todo, é horrorosa. O “jornalista profissional diplomado, publicitário, empresário e apresentador esportivo” até mesmo disse que a jogadora Marta já conquistou quase tudo – incluindo o respeito.

Pois, é, gente. Parece que, para ele – para outros tantos -, para uma atleta mulher ser respeitada, ela precisa ser “praticamente” um homem. Ele brinca em alguns momentos sobre a entrada dela na seleção masculina. Afinal, onde já se viu uma mulher jogar bola tão bem, não é mesmo?

Que mais pessoas reclamem quando se virem desrespeitadas e que o mundo fique mesmo “mais chato” para os que acham graça de subjugar as mulheres.

E é por isso que luto por um jornalismo mais humano e feminista.

“Se não agora, quando?”

Bibliografia

UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, Aesthetics, athletics and the olympics, 2016. Disponível em: <http://www.cambridge.org/about-us/news/aest/>. Acesso em: 13 dez. 2016.

O dia em que o Catraca Livre sofreu um agenda setting reverso

A tragédia da queda do avião com o time de futebol Chapecoense comoveu os brasileiros. É natural esperarmos notícias a partir do momento em que sabemos que ocorreu o acidente. Há uma série de informações importantes: Quem eram as pessoas a bordo, quantos estavam lá, quem deixou de ir, quem foi resgatado com vida, quem não sobreviveu, para onde estavam indo e por que, entre muitas outras informações. O problema surge quando o jornalismo abre margem para o que não tem valor notícia e sai até mesmo dos limites do sensacionalismo. 

Lembra quando estudamos na faculdade teorias do jornalismo e aprendemos sobre o agenda setting? Então. O assunto em voga pauta as conversas dos leitores, o assunto se retroalimenta, para o jornalismo oferecer mais informações que farão parte das discussões do público. 

Nesse caso de hoje ocorreu um movimento inverso. As pessoas não receberam bem as publicações desrespeitosas do Catraca Livre. O veículo de comunicação dessa vez não foi o suficiente para continuar com as engrenagens do agenda setting. A velocidade da internet serviria para catalisar as relações entre notícias e público e movimentar o que se fala sobre o assunto que, neste exemplo, foi o acidente de avião. 

Hoje acompanhamos o deplorável exemplo do Catraca Livre que não soube fazer jornalismo. 


  

E por que foi um erro?

De acordo com o inciso II do Art. 11 do Código de Ética do Jornalista: 

“O jornalista não pode divulgar informações: de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”

Além disso, o Art.13 diz ainda que a cláusula de consciência é um direito do jornalista. Isso significa que o profissional está livre para se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios do Código de Ética. 

No entanto, sabemos que, com relação a este último, não é algo que se aplica na realidade por motivos de: “se você não fizer, alguém vai”. 

A reação do público é que deu um tapa na cara desse jornalismo pedante que acha que pode passar por cima das pessoas. 

Pierre Lévy já dizia que a inteligência coletiva supera a inteligência dos indivíduos. Hoje, a inteligência coletiva falou mais alto. 

E o movimento de debandada de curtidas da página serviu para mostrar que a sensibilidade do público existe, deve e merece ser respeitada. 

Vendo isso, o Catraca Livre veio com um pedido de desculpas atrás do outro, confuso por não entender o que estava acontecendo. De repente, o movimento começou a ser noticiado por veículos que cobrem assuntos relacionados à comunicação. 


Se o agenda setting é a teoria que diz que o jornalismo pauta as conversas do público, hoje vimos que, na rede social, a reação da inteligência coletiva ao mau uso do jornalismo rebate a agenda. E, assim, o próprio Catraca, que virou notícia, é tema de conversas dos leitores.