Séries de sucesso criadas por mulheres: vamos falar sobre elas, TODAS elas?

“Tony Soprano é um mafioso que faz terapia e tem demaios por aí.. ele é uma mulherzinha frágil.” Entre esses e muitos outros adjetivos, eu tive o prazer e em alguns momentos, desprazer, de assistir uma palestra sobre roteiro no Festival do Rio 2016.

Minha crítica aqui não é ao palestrante, mas sim a alguns termos usados aos personagens durante a palestra e a falta de assunto sobre séries criadas e protagonizadas por mulheres.

Resumidamente, o Masterclass foi sobre criação de roteiro, com exemplos de filmes e séries de sucesso, e seus respectivos personagens. Todas as séries de sucesso mencionadas foram criadas por homens, a não ser Friends. Até ai, sem problema algum. Era a preferência do orador e realmente são séries maravilhosas, como Breaking Bad.

No entanto, fica a pergunta: num universo pós Shonda Rhimes, quando será que o foco no mundo masculino reduzirá e assuntos mais interessantes como quem vai morrer na próxima temporada de Grey’s Anatomy serão mencionadas em aulas e palestras de roteiro/cinema?

O evento teve quatro horas de duração e o tema do momento eram os heróis contemporâneos, que até então, são chamados de anti-heróis, pois são pessoas com muitos problemas e defeitos. Estes são protagonistas e fazem bastante sucesso com o público, pois nos identificamos com o seu jeito “errado” de ser.

Quando começaram os exemplos de personagens – Walter White, Tony Soprano, Don Draper – a primeira coisa que veio na minha cabeça foi: será que ninguém vai mencionar Meredith Grey ou Annalise Keating?

Grey’s Anatomy é uma das séries de maior sucesso dos EUA, criado pela deusa Shonda Rhimes, está na sua décima terceira temporada e a protagonista é uma das personagens mais problemáticas de uma série médica. São tantos problemas na vida dessa pessoa e tantos “erros” que ela comete em prol de suas ambições, que estou longe de chamá-la de heroína, e justamente por isso, nos identificamos e amamos tanto Meredith e sua bestie Cristina Yang, por exemplo.

Shonda Rhimes na capa da revista The Hollywood Reporter

Além de Meredith, temos outros exemplos de protagonistas como Olivia Pope (Scandal), Annalise Keating (How to get away with a murder), Rachel e Quinn King (Unreal), que são monstros de pessoas e monstros de personagens, com sentido de grandiosas e peversas, que não entra na minha cabeça numa aula de quatro horas, com um público igualmente dividido entre homens e mulheres, o professor da vez não mencionar nenhum desses grande exemplos de anti-heróis femininas.

Parece que sucesso válido de ser discutido em aulas e Masterclasses só servem se tem heróis e anti-heróis homens. Essa não foi a primeira Masterclass que tive de roteiro e muito menos a primeira aula de roteiro na minha vida, eu estou mais do que acostumada a questionar sobre quando iremos falar de personagens femininas e séries/filmes criadas por mulheres.

Apesar de muitas aulas serem excelentes, eu fico muito decepcionada por quase ninguém citar criadoras e produtoras como Shonda e Tina Fey, entre muitas outras, e seus respectivos trabalhos e métodos de escrita. Ou será que ninguém sabe que “Regina George trai o Aaron Samuels toda quinta na sala de projeção em cima do auditório”?*

A maravilhosa Tina Fey também atuou em Meninas Malvadas

Além de não serem mencionadas, mesmo em tempos de Jessica Jones, alunas de cinema como eu ainda são obrigadas a ouvir as “falhas” dos personagens masculinos sendo caracterizadas como falhas femininas ou o tal “mulherzinha”.

Ao mencionar o protagonista da série The Sopranos, um personagem que mata, mete a porrada, rouba, mente, e sabe-se lá mais o quê, vale lembrar e enfatizar que um dos motivos de sucesso deste programa é justamente um mafioso fazer terapia e, assim, as pessoas conseguirem se aproximar e, quem sabe, se identificar com este anti-herói.

Tony não foi o primeiro e nem o último mafioso da ficção a fazer sucesso, mas o seu destaque é ter problemas do dia a dia como qualquer outro ser humano. Olha o quão inusitado é um bandido tendo uma psicóloga particular porque quer achar meios que o ajudem a resolver seus conflitos internos. O que estou querendo dizer é que justamente o lado “mulherzinha” dele, de acordo com a palestra, é que o faz interessante e um dos personagens de maior sucesso da televisão.

Sendo assim, no momento atual da televisão e do cinema, fica complicado negar o predomínio do universo masculino em aulas e masterclasses de roteiro/cinema, e acaba sendo inevitável questionar o motivo desse predomínio. Claramente a supremacia do homem branco ainda nos rodeio e nos impede de ver e glorificar a diversidade do mundo e do audiovisual afora. Sorte que temos Tinas, Amys, Shondas e futuras criadoras que querem e vão mudar isso.

Tina Fey e Amy Poehler

 

*Essa piada foi uma referência ao filme Meninas Malvadas, escrita e eternizada por Tina Fey.

2 comentários em “Séries de sucesso criadas por mulheres: vamos falar sobre elas, TODAS elas?

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